terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Moço de estrebaria - conto

Pintura de José Malhoa

Arre que é bruto! – Pensava Juvenal- acerca do seu tio António que o havia chamado aos berros lá do fundo do quintal; Juvenal era distraído, passava o tempo a pensar como havia de sair dali, tamanho era o seu sofrimento. Havia dez anos que seus pais tinham partido para o além (deus os tenha em descanso), e sinceramente estava farto dos berros do tio; até a Alzira lhe dizia:
-Vai-te embora homem! Tens bom corpo, habilidade, o que esperas deste traste que te explora vai para uma década?
Destarte, Juvenal foi pensando na coisa com algum cuidado, não fosse o velho desconfiar. Um dia sumia-se no mundo e ia ser feliz. Os seus pais não o tinham criado para ser criado de lavoura do marido da tia; estava decidido! Quando o velho lhe pagasse a jorna da semana, ia meter pernas a caminho lá para os lados da vila onde muito trabalho havia, segundo ouvira dizer ao Manel da Fonte que vivia amantizado com uma moçoila daquelas bandas. Estava agastado de tanto ouvir «acarreta palha para os cavalos Juvenal», «ajuda a tua tia com a lenha Juvenal», «dá de beber às ovelhas Juvenal» e, ir à vila beber uns copos com os amigos e namoriscar as moçoilas nada. Para bruto, bruto e meio. De hoje não passava. Meteu pernas direito a casa com a intenção de meter os seus pertences num saco de pano e virar costas a tudo. Moço de estrebaria era, moço de estrebaria não haveria de ser mais tempo. Antes ir para a guerra defender a França. 

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