segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Ser feliz com livros - Como criar um leitor


Cresci entre livros e, não há melhor forma de estar  do que rodeada deles.
 Quer isso dizer que fui estimulada a ler?
Sim, mas não só.
 A curiosidade natural e inata levou-me a descobrir o prazer da leitura desde que "meti" a mão num punhado de livros de banda desenhada de Walt Disney, lá muito atrás, nos anos sessenta, quando devia ter uns seis anos.  Eu digo "meti" a mão, não porque os tivesse roubado, mas porque os achei empilhados junto ao lixo, mesmo a pedirem para os levar para casa.
E levei.
Devorei as imagens durante uns bons dias, tentando adivinhar a história e, a minha mãe, que infelizmente não foi à escola muito tempo, mas ficou a conhecer as letras e os números, começou a ensinar-me o alfabeto. Porém, a senhora minha mãe,  também tinha a paciência de ver as imagens comigo e contava-me a história à maneira dela, sem saber o que lá estava escrito.
Grande mulher a minha mãe! Cresceu numa época em que as crianças trabalhavam para ajudar a família e em que poucas pessoas sabiam ler. A literacia era um luxo inacessível às classes pobres, à qual pertencia.
Guardei esses livros durante anos até que um dia, já no final da primeira classe, os fui buscar e descobri que conseguia lê-los. Começou aí a minha aventura como leitora - mais ou menos por volta de 1970 - até aos dias que correm.
Como mãe consegui que a minha filha e o meu filho gostassem de livros, embora com ele tivesse sido mais complicado, porque já nasceu na época do digital. E agora tenho a missão de "contagiar" a neta de dois anos. Esta vida não é fácil!

Vamos agora a outra perspectiva um pouco mais pedagógica.
Para os pais que gostam de livros e de ler - sim, porque podem gostar de livros para enfeitar as prateleiras e não os ler -, a melhor forma que tem de contagiar as crianças, como se de uma doença se tratasse, é ler-lhe histórias.
 Ler uma história a uma criança, aguça-lhe a curiosidade pelo que existe dentro do livro e, um dia, quando souber ler, vai descobrir por si mesma como viajar por uma história, ou por um tema qualquer que tenha interesse. Os livros contribuem para o desenvolvimento das crianças e são um aliado muito saudável na vida adulta.

Como não se nasce leitor é necessário acompanhar a criança nesse percurso, embora, nesta época seja difícil combater o apelo dos ecrãs. No entanto convém contrariar essa tendência. Troque o tablet por um livro, que um dia o seu filho agradece-lhe.
No genoma humano não existe uma inclinação natural para os livros, mas existe o gene da leitura, e como tal podemos sempre incentivar, dando o exemplo e lendo histórias às crianças desde que elas estejam capaz de nos dar atenção uns poucos minutos, mesmo que de seguida, puxem as páginas do livro, ou puxem por outro para ver o que lá está dentro, parecendo não se interessarem. Os pais tem obrigação de cuidar da curiosidade dos filhos e, a leitura faz parte disso.
 Ler acende a imaginação e quanto mais se lê, mais criativa a pessoa se torna, é por isso que se diz que não existe um bom escritor que não tinha sido um bom leitor.
A leitura pode ficar associada à voz dos pais, a um momento positivo de proximidade, ao afeto, ao colo e ao AMOR. Pode tornar-se um amor para a vida.
Ler não tem que ser uma obrigação ou um castigo, mas pode servir como contrapartida quando uma criança está muito ligada ao digital e não lê por iniciativa própria. Negociar a leitura de um livro que a criança goste para poder jogar computador uma a duas horas por dia, não é de todo uma aberração.
 Quem não lê tem sérios problemas em interpretar o mundo, uma vez que não entende o significado das palavras.
A aventura de ler não tem que começar com os Maias, ou com Os Miseráveis, pode começar com qualquer livro que a criança se interesse. Não adianta impingir os nossos gostos às crianças se elas tem preferência por outros géneros. Se ele quer ler o Maze Runner, deixe-o ler. O gosto pela leitura e o seu aprofundamento vai sendo construído aos poucos. O que precisamos é de gente que adore ler, são essas pessoas que aos poucos vão contagiando os outros com o seu entusiasmo, quer através da palavra, quer através das redes sociais.
Não se ofenda se o seu filho não quer ler o Princepezinho, só porque você o leu aos doze anos e ele mudou a sua vida. Não é nada pessoal. Mostre-lhe uma variedade de livros e de-lhe a escolher. Leve-o a uma livraria de preferência.
O importante é que as crianças comecem a virar páginas, o resto vai acontecendo naturalmente como em todas as histórias.
Boas leituras e até ao próximo post.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Música das Estrelas - Conto


Nas rugas adivinhava-se a imensa emotividade de Maria: fora uma vida inteira a viver em pleno e a sentir. Naquela noite ao ouvir os primeiros acordes do piano e a voz cristalina da solista os olhos de Maria encheram-se de lágrimas a transbordar de contentamento e prazer. À memória chegou-lhe as longas noites de inverno acompanhadas pelos gemidos dos nocturnos de Chopin e o firmamento estrelado que vislumbrava através da janela da sala enquanto ele tocava. A sua alma poética conseguia nesses momentos escutar a música das estrelas.
 Foi nesse estado de saudade e embalo poético, que um breve instante do passado se desenhou na sua memória: nublado, distante, mas tão vivo. A idade que tinha não sabia, só sabia que aquela música estava entranhada na sua pele até ao último acorde. Ouviu-se uma enorme onda de aplausos e ela rejubilou de alegria e orgulho. O seu filho tinha alcançado a glória naquela noite. O piano, a guitarra portuguesa – que quase chorava – e a fadista que entoou “ Povo que lavas no rio”, arrancam-lhe lágrimas de alegria e saudade. Saudade da meninice em que a mãe lhe dizia «o pai toca a música das estrelas Maria, vê como elas saltitam» e apontava para os pontinhos luzentes lá no firmamento, escuro como breu, através da vidraça da janela. Era uma saudade boa, sã.

E aquela música recordava-lhe outras músicas, tão diferentes, às vezes dançadas, outras só sorvidas em milhares de sítios, quando ainda era jovem: bares, salas de cinema, viagens, ruas. A música de quando era jovem e conheceu o homem que a acompanhou a vida toda, na dor, na alegria, mas também na partilha de ideias e pensamentos. Nos livros que leram, nas batalhas que travaram, na educação doa filhos. Aquela música era a sua alma, a alma de uma menina que cresceu a ouvir o piano dedilhado pelos dedos firmes do pai, homem sensível, e um muro de protecção. Imersa nos pensamentos nem reparou que o marido estava a observá-la, ali, a dois passos dela com um ar que era de amor e complacência. Já sabia que sempre que o neto tocava aquela música, viajava para a infância, não com tristeza, mas com uma nostalgia de quem já viveu mais de metade da vida e quer aproveitar todos os momentos que lhe restam. Avançou até ao marido, apoiada na bengala – admirou-lhe as têmporas brancas – e, de mãos dadas, caminharam até ao palco para abraçarem o artista da guitarra portuguesa: o neto. 

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Vale a pena ser escritor independente?





Tornar-se autor/escritor é uma jornada única e individual. Mas, tornar-se autor independente, é algo que requer muito, mas muito, trabalho. Como escritor, se quiser ver o seu trabalho publicado, tem duas alternativas: de um lado a publicação tradicional, pelas editoras convencionais e,  de outro, publicar de forma independente, quer em editoras que fazem edições de autor ( como a Chiado), ou em plataformas como a AMAZON, a maior livraria do mundo. 

Ainda se acredita que a publicação tradicional tenha mais credibilidade e impacto no publico do que a auto-publicação, mas, existem muitas razões pelas quais os autores optam, cada vez mais, pela última. O autor autopublicado tem mais autonomia, mais liberdade, maior rapidez, maiores ganhos ( royalties), mas também maior responsabilidade, sobretudo à medida que vai "crescendo" como escritor. 
Na auto - publicação nem tudo são facilidades, grande parte do sucesso é muito trabalho. 

A jornada do autor independente, começa no dia em que resolve auto-publicar e nem sempre resulta de levar um "não" das editoras. Sabemos que hoje em dia, as editoras só publicam autores que sejam garantia de retorno, como actores, jornalistas, ou seja, figuras conhecidas dos midia que levam as pessoas a comprarem. 
Então para quê sujeitar-se a nem sequer receber resposta das editoras, depois de enviar o original? Não, não vale mesmo a pena, a não ser que seja masoquista. Em Portugal, um autor para ver o seu trabalho publicado numa editora convencional, tem que enveredar pela edição de autor,  sujeitar-se a gastar muito dinheiro em editoras que apenas imprimem os livros (gráficas disfarçadas) e depois deixam o autor com os livros para vender por conta própria. Provavelmente no Brasil funciona de forma igual. Embora existam casos de sucesso, penso que se contam pelos dedos das mãos quem tenha conseguido ser aceite numa editora convencional. Em Portugal um dos casos de sucesso, é o caso de Pedro Chagas Freitas, que começou em edições de autor na CHIADO, e mais tarde apareceu com outra chancela, mas, só depois de muito trabalho de marketing.  

Muito trabalho o espera!
 Depois de escrever, revisar e editar sozinho, ainda tem a capa do livro por fazer. Se é uma pessoa com múltiplas competências então conseguirá fazer tudo sozinho, utilizando as diversas ferramentas disponíveis online ( Photoshop, Canva etc). Mas também não tem que fazer tudo sozinho. Pode encontrar alguém que lhe faça a capa por um preço muito em conta ( pesquise capistas online e encontra rapidamente), e peça a uma pessoa da sua confiança para lhe fazer uma primeira leitura do livro, e depois  a outra que o ajude na revisão e, finalmente, alguém que faça a última revisão ( aquelas coisas minúsculas que nos escapam, mesmo depois de dez passagens), e só então publique o seu livro. Convém que não tenha erros mas, se tiver, ainda que poucos, a amazon irá avisá-lo para que os corrija e dá-lhe todos os pormenores do que deve corrigir. 

De inicio parece que está tudo mal. O livro não vende e o autor começa a conceber uma forma de reverter o problema; é quando descobre que tem que utilizar o marketing  e sobretudo escrever mais livros. Escrever mais é a melhor forma de marketing. Quando tem dois ou três livros publicados começa então a ver a sua renda mensal a aumentar ( comigo foi assim) e o entusiasmo para escrever mais, cresce. Os leitores voltam sempre para ler um dos seus livros novos e, ao continuar a escrever, consegue até ressuscitar os livros mais antigos. 

Ao fim de algum tempo o autor independente, percebe que tem que encontrar formas de divulgar o seu trabalho. Cria página de Facebook, Instagram, Pinterest e mais importante que estas ferramentas, é ter um blog. Crie um na Wordpress, ou na Blogger, conforme se sinta mais confortavel com a tecnologia. O meu é da Blogger e tem dominio personalizado, mas acredito que a Wordpress lhe dará um maior retorno, no entanto, pela facilidade que tenho com a tecnologia da Blogger, mantenho-me fiel. 
Uma, senão a maior vantagem da auto-publicação é que os livros estão sempre lá. Não são retirados de circulação como acontece com a publicação tradicional e, como já referi antes, cada vez que lança um livro, está a ressuscitar os anteriores, porque, se os leitores gostarem do que escreve, procuram outras obras suas. Persista. 

A formula do sucesso é a qualidade. Qualidade da escrita, da apresentação do livro, profundidade dos personagens e pertinência da história. No entanto, fique o aspirante  a autor independente descansado que existe mercado para todos os nichos. Nos blogues sobre literatura, sobretudo os brasileiros, vêem-se muitas criticas sobre a ascensão dos livros eróticos, uma vez que estão quase sempre no top de vendas.  Estar no top, nem sempre quer dizer que é o mais vendido, uma vez que existem vários factores para a ascensão do livro, desde as vendas, ao número de criticas.  Até há algum tempo muitas delas eram fraudulentas - alguns autores pediam a amigos e conhecidos que fizessem criticas -, felizmente a amazon tem forma de escrutinar a proveniência das mesmas e, à mínima ligação, não publica a critica. Portanto, não se preocupem se tiverem qualidade vão vender, e já agora vos digo que a qualidade é subjectiva. O que é qualidade para uns pode não ser para outros. Por isso haverá leitores para todos os géneros, e para si também. Não tenha medo do sucesso dos outros autores, eles não são seus inimigos. Por vezes os piores inimigos dos escritores, são os colegas. Seja carinhoso e gentil com os outros, ainda que ele ou ela, não escreva o seu género preferido. 

Onde é que se vendem livros em Português? Em todo o mundo, porque a língua portuguesa está espalhada por aí - o português de Portugal e o português do Brasil. Não tenha receio de escrever em português, vai encontrar mercado para si de certeza. Mas onde?, pergunta o autor. Respondo que sobretudo no Brasil. A maioria dos meus leitores são brasileiros, embora já tenha conquistado uma pequena percentagem de portugueses que utilizam a amazon espanhola, porque, infelizmente em Portugal ainda não existe amazon. 

E deveria escrever em Português de Portugal ou do Brasil?  Fica ao seu critério. Até agora tenho escrito em português de Portugal e não deixei de vender no Brasil por causa disso, no entanto, reconheço que venderia mais se escrevesse em português do Brasil e, em atenção aos meus leitores, o próximo livro terá as duas versões, a leitura é mais prazerosa se os termos forem conhecidos. 

É fácil receber o dinheiro que ganha com os seus livros. Pessoalmente recebo através da Payonneer, um cartão Mastercard. A Payonneer pertence ao Bank of América e é bastante eficiente. Você consegue controlar quando recebe e quando gasta através da sua conta online. A melhor forma de usar este cartão é fazendo pagamentos, ou seja, use normalmente, ao invés de fazer transferências para a sua conta de origem, no seu país.  A AMAZON, obriga a ter uma conta num banco Americano para receber o dinheiro por transferência bancária, caso contrário terá que receber por cheque e demora muito mais tempo. Na Payonneer é certinho, ao dia 29 já tem o dinheiro na sua conta. 

Porquê publicar na AMAZON? Por diversos motivos, mas principalmente pela facilidade de trabalho e qualidade da plataforma, quer dos ebooks ( www.Kdp.com), quer da impressão sob demanda (www.createspace.com) As duas plataformas já possibilitam a impressão em papel, no entanto eu continuo a preferir a Createspace para publicar em papel, tem mais possibilidades de layout. Outra das razões é a financeira. Você recebe 70% nos ebooks ( se tiver exclusividade com a amazon) e pode usufruir de algumas ferramentas de marketing que lhe possibilitam divulgar o livro, e 35% nos livros em papel. Ora, considerando que as editoras tradicionais apenas pagam cerca de 10% do preço de capa, ao autor, vale a pena publicar de forma independente. 

Até breve! Caso tenham dúvidas, posso esclarecer através da caixa de contacto.



domingo, 29 de julho de 2018

A Cápsula do Tempo - Romance ( excerto)





Imagens retiradas da internet. 

(...)Lá estava a foto da cobra e do crocodilo. Ele e uns cinco homens seguravam uma jibóia morta, ao longo do seu comprimento e, na foto ao lado, o mesmo grupo pousava junto a um enorme crocodilo onde um homem fardado de verde caqui, assentava  uma metralhadora. Se fosse hoje era tido como um ato de barbárie, mas naquela época, anterior a 1975, era uma proeza. Soldado que era soldado - e homens com eles no sitio -, matava um daqueles bichos abundantes pelas selvas africanas, para mandar uma foto para as madrinhas de guerra, comprovando a sua bravura. 
Joana passava as folhas lentamente. Ali estava o seu Adérito com o alferes Torrinha e com o capitão Antunes, tisnados pelo sol de Angola, e com o peso da guerra nos ombros embora mostrassem um grande sorriso. Como a vida pode ser enganadora. A guerra transformara o seu homem num monstro.
Dois meses depois, de receber aquelas fotografias, chegava um aerograma a dizer que Adérito terminara a comissão em Angola e vinha de férias à metrópole. Quando soube a noticia já ele vinha no barco que o conduziria a Lisboa.
Sentia um frio na barriga só de pensar em ver aquele homem bonito e sorridente. Se o amor era aquilo, podia dizer que amava o seu homem. Decerto ele teria muitas madrinhas de guerra[1], mas a namorada era ela. Ela era a escolhida.
Hoje duvidava que ele a tivesse escolhido pelos melhores motivos. Dali a uma semana Adérito dera-lhe o primeiro desgosto.
O comboio estava atrasado quase uma hora, mas Adérito prometera telefonar para a venda dos Oliveiras a avisar que ia a caminho de casa, quando embarcasse no comboio e não o fizera. As duas famílias estavam na plataforma, ansiosos por verem chegar o bravo soldado que escapara aos “turras” e às malvadas minas que ceifavam vidas. Mas a espera não dera frutos. Adérito não viera no comboio. Desembarcaram três dos filhos da terra que estavam na sua companhia e foi com o coração apertado que viu Manuel do Freixo, aproximar-se.
Os olhos apaixonados do jovem soldado raso, olharam-na com um misto de amor e pena:
- Ele seguiu para o Porto. Tem lá uma madrinha de guerra que foi ver – disse-lhe Manuel.
Preferia ter sabido da sua morte. Talvez não lhe doesse tanto.
Manuel era apaixonado por Joana fazia anos, e foi com algum prazer que lhe deu a noticia que o seu namorado preferia outra. O recado – e o que ele tinha de subentendido – estava dado. Joana percebera perfeitamente que ele o fizera por despeito. Sentia que Manuel lhe estava a dizer que mais valia ter aceite o seu amor, porque ele, Manuel, nunca a trataria dessa forma. Adérito Simões era o soldado que apanhara um esquentamento mal pusera os pés em Luanda e se enrolara com quantas prostitutas por lá encontrou. Joana estava muito enganada quanto ao homem que escolhera para namorar.
 Joana suspirou. Como teria sido a sua vida se o marido não tivesse ido à guerra e não se entregasse à bebida?
Com o álbum aberto sobre as pernas envoltas numa manta, a memória recuou mais uns bons anos e recordou aquele ano em que decidiram casar. Nesse ano estava doente, sem que os médicos descobrissem o nome da maleita que a impedia de trabalhar por longos períodos. Casaram em 1975, oito meses depois da guerra terminar e quando Adérito já não corria perigo de ser mobilizado outra vez para alguma província das colonias portuguesas. A noite de núpcias passou-a no hospital com cólicas abdominais e o seu homem a festejar o casamento com os amigos. Joana tinha vinte e três anos e a esperança que todas as jovens alimentam ao longo da adolescência: casar e ser feliz ao lado do homem por quem se apaixonara.
Tudo foi tão diferente que ainda hoje lhe custa a aceitar que a vida é tão injusta com as pessoas. Quando voltou para casa, com o aviso que fizesse dieta de lacticínios, encontrou Adérito alcoolizado e a receção não foi a que esperava. Tomou-a à força e naquele instante, viu a romantização da sua primeira vez, tornar-se numa coisa dolorosa e traumatizante. Depois, nos dias, meses e anos que se seguiram, Joana passou o tempo a dar aulas, nas escolas primárias da região, e a tentar manter as terras de Adérito a produzir, com a colaboração do capataz.(...)

Caras(os) leitoras(es) aqui fica uma amostra de degustação do meu próximo livro a ser lançado lá para o fim do ano. Tinha previsto publicar no Verão, mas obrigações familiares, tem-me "roubado" tempo à escrita. 
Adianto que depois de muito pensar, vou publicar o ebook em português do Brasil e o livro físico em português de Portugal. Espero com isso alcançar mais leitores brasileiros que preferem ler em português brasileiro. 

Até ao próximo post. 
Espero reacções vossas ao excerto e ao tema do livro. 




[1] Jovens que se correspondiam por carta com os soldados que estavam na guerra do Ultramar, e que podiam tornar-se namoradas, amantes ou esposas.




sexta-feira, 13 de julho de 2018

HELENA (romance)

Aos seus pés estendia-se Lisboa e o rio Tejo. Navios ostentado bandeiras de diversas nacionalidades descansavam nas águas do rio, à espera de melhores dias para zarpar através do atlântico
 A cidade vista do castelo de São Jorge continuava a ter aquele encanto mágico que ela recordava sempre. Era como apreciar uma pintura.
Helena ficou radiante com o convite de Ricardo para almoçarem numa tasca típica, e subirem até ao miradouro passeando pelas ruas intricadas do bairro de Alfama. 
- Estás muito silenciosa querida – questionou-a.
«Querida» era uma palavra comum na boca de Ricardo desde que era criança mas, aos vinte anos, soava-lhe estranha. Pôs os olhos no chão, corada.
- Passou tanto tempo. Se soubesse como senti a sua falta. Mais ninguém se dedicou a mim como o – ia dizer o padrinho mas parou a tempo - senhor Ricardo o fez.
- Senhor não, por favor, Ricardo está bem - emendou ele. 
- Porque partiu? Nunca acreditei nas histórias que ouvi.
Ricardo sorriu-lhe e passou-lhe o braço pelos ombros num abraço terno.
Sim, porque partira? Era uma boa pergunta, mas não lhe podia revelar que já não suportava a fama de libertino que criara desde os tempos da universidade, e que o exílio forçado lhe pareceu a melhor forma de se escapar à vida boémia que levava em Lisboa. Mas a verdadeira razão era outra e dessa não podia falar-lhe, mesmo. Se não tivesse partido, não estaria ali, ao lado dela. Quem sabe já não estaria vivo.  
Afastou-se ligeiramente.   
- Sei lá…tanta coisa…queria aventuras, e provar a mim próprio que não precisava da fortuna dos meus pais.
Era uma meia verdade, mas não queria manchar a sua imagem perante Helena.
Helena aproximou-se e enfiou o braço no dele como antigamente.
Ricardo apertou-lhe a mão pousada no seu braço esquerdo e sorriu-lhe. Da menina que conheceu pouco restava, apenas os grandes olhos verdes e os mesmos cabelos castanhos de ondas largas a emoldurar-lhe o rosto. Helena devolveu o sorriso e um sentimento estranho passou entre os dois.
- Tens namorado Helena?
- Não. E o padrinho é casado? Tem filhos?
- Não sou teu padrinho Helena. Agora somos dois adultos e não consigo ver em ti a menina a quem ensinei a gostar de livros…ainda gostas de livros?
Assentiu com a cabeça.
- Desculpe, é difícil habituar-me a tratá-lo de outra forma, o senhor não mudou assim tanto e…seja – rendeu-se - vou tratá-lo pelo seu nome. Ricardo. E sim,continuo a devorar livros, mas não consigo convencer os meus pais a deixarem-me continuar os estudos – e atreveu-se a levantar o rosto para o encarar.  
- Uma injustiça, eu sei. – e beijou-lhe a ponta dos dedos da mão pousado no seu braço.
Helena enrubesceu como um tomate maduro daqueles que os pais plantavam lá na horta do Alentejo. 
- Não precisas de ficar corada. E fica descansada não sou casado, não tenho filhos, sou livre como um passarinho.  
- Pelo menos não corro o risco de aparecer uma mulher, por aí aos gritos, a reivindicar o marido – afoitou-se a dizer em tom de provocação.
- Pois não – confirmou ele com um sorriso. – Olha – e apontou para o rio – lá vai um barco para a América carregado de refugiados. 
- Ummm… Pensa em partir de novo?
- Não sei. A guerra está a alastrar e tenho que pensar no que fazer à fazenda.
De repente o olhar dele ficou distante e uma ruga de preocupação surgiu na sua testa. Helena continuou a caminhar a seu lado mas manteve-se em silêncio. Era a primeira vez que andava de braço dado com um homem e o seu coração estava disparado. O fascínio que sentia por ele quando era criança manteve-se, mas agora era um fascínio diferente: um fascínio de mulher, o que a deixava muito perturbada. A madrinha Catarina não ia gostar nem um pouco que se aproximasse do seu filho preferido.
**
- Boa tarde senhor Ricardo. Os senhores, seus pais, esperam-no no escritório. – disse o empregado afastando-se em direcção à zona de serviço da casa. 
- Obrigado Martinho.
Helena percebeu que era um sinal para se afastar. A madrinha não lhe permitia muito mais que tomar as refeições com eles. Participar em conversas de família era-lhe completamente vedado.
- Obrigado pelo passeio senhor Ricardo.
Ricardo tomou-lhe as duas mãos e beijou-as fazendo-a corar de novo.
- Ricardo. O meu nome é Ricardo. Até daqui a pouco – e afastou-se em direcção ao escritório do pai, ao fundo do longo corredor da mansão.
José Luís e Catarina estavam sentados com ar carrancudo.
- Aqui estou. Aconteceu alguma coisa para me mandarem chamar desta forma tão…formal?
- Na realidade aconteceu – disse a mãe com ar sério.
- Não exageres Catarina – advertiu o marido que não concordava com as posições drásticas da mulher.
Ricardo sentou-se na poltrona de veludo azul, junto à  secretária de pau-rosa e disse:
- Queira dizer, minha mãe, sou todo ouvidos.
A mãe levantou-se, ajeitou a saia e o cabelo e virou-se para o filho com cara de caso.
- Por tua causa vou ter que enviar Helena para o Alentejo - disse a matriarca muito séria.
- Creio não estar a entender?
- Não fica bem a um Santana desfilar na rua com uma empregada.
José Luís abanava a cabeça em sinal de discordância. Nunca tinham tratado a rapariga como empregada. Se Helena era afilhada de Catarina e considerada como se fosse da família, porquê tanta exaltação? 
- E qual é a profissão dela dentro desta casa? – perguntou Ricardo com ironia.
- Ora Ricardo! Não seja insolente! Sabe bem que Helena é filha dos nossos caseiros.
- Sem dúvida que sei. Mas sempre frequentou a casa como se fosse da família e fomos nós que lhe pagamos os estudos, creio eu! O que torna a condição social dela, um pouco diferente. Helena é uma jovem com estudos minha mãe, ou já se esqueceu?
- A tua mãe é uma exagerada – proferiu José Luís. – Já lhe disse que se não quisesse que ela frequentasse a sociedade, não a devia ter convidado para vir para Lisboa, muito menos permitir-lhe que convivesse com os nossos amigos. A tua mãe tem um grande problema de consciência a atormentá-la – aventou.
Ricardo coçou a cabeça, não entendeu o que a consciência da mãe – que raramente se manifestava- teria a ver com Helena.  
- Na verdade Ricardo regressou para tomar conta das propriedades, não foi meu filho? Não deve perder tempo com…
- Com o quê, minha mãe? A senhora já viu o meu tamanho? Por acaso ainda se recorda da minha data de nascimento? Desculpe-me a insolência mas eu não dependo de vocês para viver, tenho os meus negócios e tomar conta dos vossos é uma questão a ponderar. O meu irmão deve ter uma palavra a dizer sobre isso. Ou não?
- António seguiu a carreira militar, não abdica dela, sobretudo agora que uma guerra se avizinha. Imagine se invadem Portugal!
- Talvez ele ainda seja útil nesta guerra, apesar de sermos neutros – ironizou Ricardo.- Tenho a certeza que Hitler irá tentar conquistar o mundo e depois disso nada vai ser igual.
-  Não duvido uma palavra do que disseste, filho.  É uma bênção se Portugal não for engolido por este conflito – disse o pai.   
- Há territórios mais apetecíveis a leste, senão pode crer que já estaríamos a fazer continência ao Fuher e a dizer Heil Hitler. Na realidade estamos a fazer-lhe continência, mas de forma disfarçada.
- Não fales o que pensas em voz alta, Ricardo. Não te quero ver atrás das grades. Mas já fazemos a saudação nazi, sim. Chegaste há pouco filho, vais ficar surpreendido com o que se passa por aqui. As coisas pioraram. É ver a Mocidade Portuguesa a fazer a saudação…e vais ficar abismado - disse o pai.
- Já nada me espanta neste país assombrado, meu pai. Estou muito bem informado – deixou escapar.
- Ricardo, desta vez abstenha-se de emitir opiniões em público com os seus amigos, aqueles, bordeaux, escarlates, vermelhos...ou… sei lá o que eles são! –vociferou a mãe muito irritada.
- Olhe minha mãe, não sou homem de me vergar. Não vou fazer uma manifestação contra o regime, fique descansada, não por falta de vontade, mas porque não sou tolo e tenho amor à vida, mas não abdico das minhas convicções.
O pai coçou o cocuruto da cabeça e acendeu um cigarro. Não sabia como o filho tinha apanhado aquelas ideias…e temia pela sua segurança. Mas reconhecia que ele tinha coluna vertebral. Era firme nos seus ideais. Ele próprio não via com bons olhos a posição do presidente do conselho. O povo a passar fome todos os dias, e os camiões do exército português a carregarem diárimante com latas de conserva de sardinha em direcção à fronteira, para alimentar os inimigos da europa.
- Quanto à vossa herdade no Alentejo, acho por bem contratarem um administrador por uns tempos. Talvez possa ajudar, mas tenho que decidir o destino dos meus negócios, que possuo… na europa e em África, sobretudo quero deixar as pessoas que trabalham para mim em segurança. Sou responsável pela vida deles – disse para os pais.
Ricardo levantou-se e dirigiu-se para a porta.
- Se me dão licença, vou tomar um banho.
- Ricardo meu filho! Peço-lhe que não volte a sair com Helena. Aliás, afaste-se dela, pelo nosso bem.
- Quando a mãe me der um bom motivo para o fazer, pondero a situação. Até lá, desculpe-me, mas a Helena é alguém que eu prezo muito.  
E saiu da sala fechando a porta atrás de si com alguma veemência.  
- Eu avisei-te – disse o marido.
- Eu é que sei José Luís! Não tens noção do perigo? Vou fazer tudo para os afastar.
- Acredito. Sempre foste uma mulher determinada. – ironizou. – Mas há batalhas impossíveis de travar. Sabes que o teu filho sempre foi determinado. Tanto como tu – atacou-a.  
Catarina nem se dignou olhar para o marido. Antevia o pior cenário: Ricardo apaixonado por Helena, algo que tinha que evitar a todo o custo. Desde que Helena começara a gravitar em torno de livros, que Ricardo lhe passou a dar atenção, o que durou até ele partir para África. Mas não ia tolerar esta aproximação. Nem por cima do seu cadáver, ou melhor, teriam que a matar para que os dois…enfim, nem queria pensar nisso. "

 Este é sem duvida o livro que mais prazer me deu a escrever. Disponivel em ebook e Papel na amazon. 



Destino, Paixão e Vingança.
Em 1941, Lisboa era uma cidade perigosa.

domingo, 24 de junho de 2018

PRAÇA DO ROSSIO Nº59 ( Jeannine Johnson Maia)

SINOPSE
Lisboa, abril de 1941. Em apenas nove dias, as vidas de uma mulher e de um homem mudarão para sempre. Vinda de Marselha, Claire, uma franco-americana de 17 anos, desembarca do comboio na estação do Rossio. À chegada, o seu caminho cruza-se - de maneira pouco agradável - com o de um jovem empregado do café Chave d’Ouro. Desenhador (e carteirista) nos tempos livres, António testemunha em primeira mão e tira partido dos conluios entre os espiões que se passeiam livremente pela capital portuguesa.

Enquanto aguarda pela família, na esperança de poderem partir juntos para os Estados Unidos, Claire vai à procura de duas crianças separadas dos pais à força e abandonadas à sua sorte, que transportam, sem saber, um segredo perigoso. António, chocado com o assassinato de um amigo, refugiado alemão raptado pela PVDE, tenta descobrir o responsável pelo crime. As investigações de ambos - e as suas vidas - vão cruzar-se, sem apelo nem agravo, à medida que descobrem que os desaparecimentos estão relacionados com um objeto que os nazis procuram em Lisboa.

Numa cidade repleta de espiões, intrigas e traição, a posse de tal objeto pode representar uma sentença de morte. Mas pode ser bem mais angustiante ter de decidir entre o amor e o dever.



A autora

Antes de se mudar para Portugal, Jeannine Johnson-Maia trabalhou como jornalista na Bélgica e em Washington, D.C.
Na qualidade de assessora de imprensa, integrou a missão norte-americana junto da União Europeia, em Bruxelas.
Estudou nos Estados Unidos e em Itália, ensinou Inglês em França e viveu em Cabo Verde.
A atração pelas viagens e pelas complexas relações entre os países começou a ganhar forma nos tempos do liceu, graças, em parte, a uma fascinante fotografia do monte de Saint-Michel na capa de um belo livro.
Com o tempo, esses interesses levaram-na a licenciar-se em Política Externa pela Universidade de Virgínia (EUA), a concluir um mestrado em Economia, Estudos Europeus e Relações Internacionais, na Johns Hopkins School of Advanced International Studies (EUA) e a obter um segundo mestrado em Escrita Criativa na Universidade de Lancaster (Reino Unido).
Jeannine aprecia particularmente temas históricos, andando sempre em busca da história por detrás da História.
Fanática por Ted Talks, acha que os passeios à beira-mar são a melhor forma de terapia.
Vive no Porto, cidade que considera irresistivelmente fotogénica.



domingo, 10 de junho de 2018

Sorrisos Quebrados de SOFIA SILVA - Opinião


Sinopse:
Paola está num momento chave da sua vida. Vai ter de decidir se quer continuar a viver ou se vai deixar-se morrer às mãos do homem por quem um dia se apaixonou e com quem veio a casar. Como foi possível que aquele homem bem parecido, poderoso e deslumbrante se tornasse no monstro que a está a destruir? Mas Paola decide viver.

E, no mais improvável dos lugares, vai encontrar de novo a luz e descobrir que, afinal, é possível amar outra vez.

A AUTORA

Sorrisos Quebrados marca a estreia de Sofia Silva na escrita de ficção. Um romance sobre violência doméstica, abuso sexual e as segundas oportunidades que a vida por vezes reserva. Sofia Silva nasceu em Vila Nova de Gaia e é licenciada em Ensino Básico - 1º Ciclo, pela Universidade de Aveiro. A literatura é a sua grande paixão, com destaque para a poesia, género literário que prefere. Pablo Neruda é o seu autor de eleição.


Desde jovem, a autora participa ativamente no meio literário. Em dezembro de 2014, iniciou-se na escrita de ficção através da plataforma Wattpad, com a série Quebrados, da qual Sorrisos Quebrados é o primeiro volume, onde são narradas histórias sobre violência doméstica, deficiência física e abuso sexual.

Esta série começou por alcançar grande sucesso no Brasil. Contando com mais de um milhão de leituras e com o apoio fervoroso das suas leitoras brasileiras, Sofia Silva publicou de forma independente, na Amazon, a versão digital de Sorrisos Quebrados, atingindo o top dos livros mais vendidos.

Em 2017, no âmbito do lançamento no Brasil de Sorrisos Quebrados, no formato livro, foi convidada para participar na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, um dos maiores eventos literários de repercussão internacional.

Vencedora do prémio instituído pela Amazon brasileira para Melhor Livro de Ficção em 2017, superando assim autores como Dan Brown, Stephen King e Carlos Ruiz Zafón.

A obra de Sofia Silva conquistou o público, a crítica e o mercado brasileiros. Estreia-se agora em Portugal, publicada pela Editorial Presença, com o livro Sorrisos Quebrados, a que se seguirão os outros volumes da série.


OPINIÃO - Tive conhecimento deste fenómeno de leituras na plataforma Wattpad, mas só agora li o livro. Comprei a versão em papel - versão portuguesa - e confesso que tinha algumas reservas pois estava com receio de encontrar uma história da qual não gostasse. 
Fiquei presa nas primeiras páginas. A sorte, ou destino, da personagem Paola, foi algo que não me deixou largar o livro. 
Uma história bonita e, ao mesmo tempo feia de sentimentos maus e violência, transportou-me por um universo que eu conheço - os meandros da mente humana -  e, Sofia Silva tratou de forma magistral, o tema. 
Estranho é que só depois de fazer sucesso no Brasil, a autora viu o seu livro publicado cá por uma editora portuguesa. Enfim...a realidade editorial portuguesa, continua igual.
Pois que venham mais livros da autora que os lerei de certeza. 
Parabéns SOFIA SILVA!

domingo, 13 de maio de 2018

Lista dos principais gestos da linguagem corporal


Olá caros (as) leitores. Muitos de vocês, escritores na sua maioria, gostaram da minha lista de expressões faciais, então pensei em fazer um post sobre gestos e linguagem corporal, também para atender aos pedidos deixados na caixa de comentários. A forma como descreve os seus personagens, que, quanto menos directa for, mais apelativa se torna, pode ajudar os leitores a visualizar uma cena e ter uma ideia dos personagens e, mais uma vez, eles podem estabelecer linhas de diálogo para que não tenha uma sequência de” ele disse, ela disse, ele perguntou, exclamou, etc.” correndo a página de fio a pavio.

Você pode querer considerar quais os gestos ou qual linguagem corporal é típica para cada um de seus personagens. Por exemplo, um dos personagens no romance que estou a escrever, tem o hábito de torcer a cabeça sempre que fica nervosa. Outro passa as mãos pelos cabelos despenteando-os literalmente. Eles só fazem isso algumas vezes ao longo do livro, mas eu acho que detalhes como esses fazem os personagens mais sólidos e, por consequência, a leitura mais agradável e fluida, deixando grande parte daquilo que seria uma descrição mais pormenorizada, à descoberta e imaginação do leitor. Grande parte do prazer de ler literatura seja ela de que género for, tem a ver com a imaginação que o escritor nos proporciona.

Algumas das coisas na minha lista não são exactamente linguagem corporal ou gestos, mas são úteis para enriquecer o diálogo entre os personagens, ou até substitui-lo. Tal como na última lista, incluí algumas maneiras diferentes de dizer a mesma coisa. Existem algumas frases pequenas e frases mais longas, que pode obviamente reescrever e ajustar como quiser. As listas que publico aqui são para ser usadas e como é óbvio pode copiá-las.

Linguagem corporal para escritores

ele abaixou a cabeça
ela baixou a cabeça
ele se abaixou
ela inclinou a cabeça
ele cobriu os olhos com uma mão
ela pressionou as mãos nas bochechas

ela levantou o queixo
ele ergueu o queixo

as suas mãos com os punhos em riste
as mãos dele apertaram os punhos
ela cerrou os punhos
ela fechou os punhos
ele abriu os punhos
seus braços permaneceram pendurados ao longo do corpo

ele encolheu os ombros
ela deu de ombros
ele levantou um ombro em descaso
ela deu um aceno ao acaso

ela levantou a mão em saudação
ele acenou

ela ergueu as mãos
ele levantou as mãos
ela ergueu as palmas das mãos
ele jogou as mãos no ar
ela esfregou as palmas das mãos
ele esfregou as mãos
ela fez uma torre de seus dedos
ele abriu as suas mãos
ela gesticulou
ele acenou com as mãos
ela bateu palmas
ele estalou os dedos
ela levantou um dedo
ele apontou
ela gesticulou com o indicador
ele apontou o indicador para…
ela estendeu o dedo do meio para ele
ele deu-lhe o dedo
ela estendeu o polegar para cima

ela colocou as mãos nos quadris
ela enfiou as mãos nos bolsos
ele enfiou as mãos nos bolsos da frente
ela descansou a mão no quadril
ela projectou seu quadril

ela cruzou os braços
ele cruzou os braços sobre o peito
ela se abraçou
ele passou os braços em volta de si
ela balançou para frente e para trás

ela abriu bem os braços
ele estendeu os braços
Ela estendeu sua mão
ele estendeu a mão

ele balançou sua cabeça
ela assentiu
ele balançou a cabeça
ela inclinou a cabeça
ele inclinou a cabeça
ela inclinou a cabeça
ele sacudiu a cabeça na direcção de ...
ela virou o rosto
ele olhou para longe

suas respirações aceleraram
ela ofegou
ela estava respirando com dificuldade
seu peito subiu e desceu com respirações rápidas
ela respirou fundo
ele respirou fundo
ela respirou fundo
ele engasgou
ela segurou a respiração
ele soltou uma respiração profunda
ela exalou
ele estourou as bochechas
ela bufou
ele suspirou
ela bufou

ela riu
ele riu
ela gargalhou
ela deu uma risada amarga
ele deu risada sem alegria
ela riu
ele gargalhou

ela esfregou o ombro
ele amassou o ombro
ele rolou os ombros
ela ficou tensa
ele massageava a nuca
ela esfregou as têmporas
ela esfregou as mãos nas coxas

ela passou a mão pelos cabelos
ele enfiou a mão pelo cabelo
ele passou os dedos pelos cabelos
ele empurrou o cabelo para longe do rosto
ela brincou com uma mecha de cabelo
ela brincou com o cabelo dela
ela girou o cabelo
ela enrolou um cacho em volta do dedo
ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha
ela soltou o rabo de cavalo e sacudiu o cabelo
ela jogou o cabelo
ele enterrou as mãos no cabelo
ele acariciou a barba
ele coçou a barba

ela puxou o lóbulo da orelha
ele mordeu um dedo
ela mastigou uma cutícula
ela pegou as unhas
ela inspeccionou as unhas
ele arrancou o punho de sua camisa
ela pegou um pedaço de fiapo da manga
ele ajustou as lapelas de sua jaqueta
ela brincou com seu brinco / pulseira
ele torceu a aliança no dedo
ela brincou com o celular
ele puxou o colarinho da camisa
ele ajustou a gravata
ela alisou a saia

ela coçou o nariz
ele coçou a cabeça
ele esfregou a testa
ela esfregou os olhos
ela beliscou a ponte do nariz
ele segurou o nariz

ela deu um tapa na testa
ele bateu na testa
ele deu uma palmada na boca dela
ela cobriu a boca com a mão
ela pressionou os dedos nos lábios
ele segurou o dedo até os lábios
ele esfregou o queixo

ela apertou a mão na garganta
ele apertou o peito
ele se encostou na parede
ela saltou na ponta dos pés
ela pulou para cima e para baixo
ele bateu o pé
ela pisou ele
ela cruzou as mãos no colo
ela tamborilou com os dedos na mesa
ele bateu os dedos na mesa
ele bateu a mão na mesa
ela bateu com o punho na mesa
ela colocou as palmas das mãos na mesa
ele descansou as mãos na mesa
ela colocou as mãos na mesa, com as palmas para cima
ele se recostou na cadeira
ela prendeu os pés ao redor das pernas da cadeira
ele agarrou o braço da cadeira
ela colocou as mãos atrás da cabeça
ele colocou os pés na mesa
ele mexeu
ela balançou o pé
ele balançou a perna
ela cruzou as pernas
ele descruzou as pernas
ela cruzou os tornozelos na frente dela
ela esticou as pernas na frente dela
ele se esparramou
ele colocou os pés na mesa

ela se encolheu
ele estremeceu
ela se encolheu
ele estremeceu
ela tremeu
seu corpo tremeu
ela se encolheu
ele encolheu de…
ela se amontoou no canto

ele se afastou
ela se afastou
ele se virou
ela pulou na vertical
ele endureceu
ela endireitou
ele ficou tenso
Ele pulou
ela pulou para os pés
ele levantou-se
ela se levantou do assento

ela relaxou
ele encurvou
seus ombros caíram
ela murchou
ele ficou mole
ele deu de ombros
ela endireitou os ombros

ela apertou as mãos atrás das costas
ele estufou o peito
ela empurrou o peito

ele apoiou o queixo na mão
ela descansou o queixo na palma da mão
ele bocejou
ela esticou

ele virou
ela se virou
ele girou
ela cambaleou

ela se afastou
ela se aproximou
ele se aproximou
ela avançou para frente
ele andou
ela mudou de um pé para o outro
ele balançou em seus pés
ela arrastou os pés

ela bombeou um punho
ele enfiou os punhos no ar
ela socou o ar

Espero que vos seja útil. Força nesses dedos e até ao próximo post!

domingo, 29 de abril de 2018

A minha experiência com a Babelcube

imagem retirada da internet


Descobri a Babelcube num anuncio no Facebook há cerca de dois anos. Como todos os autores independentes, achei fantástica a oportunidade de poder traduzir os meus livros para outras línguas. Inscrevi-me no site, coloquei lá três dos meus livros e esperei que algum tradutor se mostrasse interessado. Demorou bastante tempo até que um dia fui contactada - quase de imediato - por vários tradutores que me mandavam um excerto dos livros traduzido para que eu aprovasse ou rejeitasse as traduções. 
Não domino bem nenhuma língua estrangeira, embora me desenrasque em inglês, espanhol, italiano e francês.  Como já tinha lido muitas criticas acerca das traduções deste site, tomei alguma cautela e pedi a amigos que dominam bem o inglês e o espanhol, para me avaliarem as traduções. 
E começaram os problemas. Tive que recusar a maioria. No entanto um dos meus livros "Jardins de Luar" foi traduzido para espanhol ( da Argentina) e a tradução pareceu-me muito boa, sendo essa também a opinião de um amigo que a avaliou. Até aqui tudo bem, mas, depois do livro traduzido, havia que submetê-lo na plataforma para que a Babelcube o disponibilizasse para os seus parceiros. 
Começaram de novo os problemas. 
Como era a primeira vez que colocava um livro traduzido na plataforma, não o consegui fazer e pensei que o erro era meu. Mandei email para a Babelcube e informaram-me que o tradutor tinha que validar a tradução. Entrei em contacto com o tradutor - sempre disponível e cordial- e ele disse-me que a Babelcube o tinha informado que o processo estava concluído da parte dele, desde que o acordo fora assinado. Depois de email para cá e para lá, mensagens com o tradutor, o problema persistia e era da plataforma, sendo impossível de resolver pela minha parte, ou do tradutor. E confesso que a plataforma não fez qualquer esforço para resolver o problema, que neste caso era de código. 
 Propus ao tradutor iniciar o processo de novo e submeter o livro outra vez - não havia outra forma - , mas creio que ele se cansou de tanta confusão, até porque as pessoas tem mais que fazer, e desistiu de me responder. Aguardei meses na esperança de resolver o problema, e depois de tudo tentar, recusei a tradução, ficando muito triste com a experiência, mas com um livro traduzido.  

Há uns meses outro tradutor, quis traduzir outro livro e aceitei. Prazos cumpridos, desta vez foi mais fácil concluir o processo, no entanto, quando o fiz, tinha consciência que a tradução estava muito má. Um amigo, professor de inglês fez uma leitura transversal e disse-me que não publicasse. Para testar a "seriedade" da plataforma, submeti o livro, e esperei. Ontem recebi um email da Babelcube a informar-me que o livro tinha sido recusado pela Barnes&Noble, Kobo e iTunes, por falta de qualidade da tradução. Não me surpreendeu e fiquei aliviada. Não queria colocar no mercado uma tradução má e até já tinha pensado submeter o livro em inglês para revisão e aprimoramento da tradução. 
Mas caros leitores o pesadelo não acabou. Hoje ao visitar a minha página de autor na amazon, dei com o livro publicado pela Babelcube. Estou furiosa, mas não posso fazer nada, a não ser esperar que a amazon suspenda o livro por má qualidade, no entanto, isso só acontecerá quando algum leitor se queixar da qualidade da tradução. 

Conclusão: acredito que existam experiências boas com esta plataforma - o conceito é bem pensado- mas nada nos garante a qualidade das traduções e, até agora despendi tempo e muita paciência a tentar colocar no mercado algo que não tem qualidade. Não desisto do site ainda, mas futuramente só aceito tradutores nativos da língua como o tradutor que traduziu Jardins de Luar.  Creio que a Babelcube deveria ser mais criteriosa com as traduções, uma vez que no contrato especifica que se reserva o direito que não publicar quando a qualidade for duvidosa. 

E esta é a minha experiência com a Babelcube. Qual é a vossa? Alguém já publicou um livro traduzido por este site, e que queira partilha aqui?

domingo, 8 de abril de 2018

Novidade! A FILHA DO MERCADOR DE SEDA ( Dinah Jefferies)


Uma mulher entre duas culturas, um amor contra todas as probabilidades.
Indochina Francesa, 1952. Nicole Duval tem 18 anos, sangue vietnamita e francês e vive na sombra da sua irmã Sylvie desde a morte da mãe. Daí que a irmã tenha ficado responsável pela gestão do negócio de sedas do pai, e Nicole com a pequena loja de tecidos da família, situada no quarteirão vietnamita de Hanói — uma área a fervilhar com militantes rebeldes que se opõem ao domínio francês.

Convivendo cada vez mais com o povo vietnamita, Nicole desperta para a corrupção e violência do colonialismo. E o seu mundo acaba por desabar ao saber do chocante envolvimento da sua família nas maquinações coloniais.
Num país rasgado pelos contrastes, Nicole conhece Tran, um rebelde vietnamita que a ajuda a escapar aos seus problemas; mas é por Mark, um charmoso empresário americano, que ela se apaixona. Os dois homens são de mundos opostos e Nicole sente-se dividida. Chegará o momento em que ela terá de fazer uma escolha, mas em quem poderá ela confiar quando ninguém é o que parece?

Um romance sobre autodescoberta, rivalidade entre irmãs e um amor que desafia as convenções.

A AUTORA


Dinah Jefferies nasceu na Malásia e mudou-se para Inglaterra com 9 anos.
Estudou na Birmingham School of Art e, mais tarde, na Ulster University, onde se formou em Literatura Inglesa.
Autora bestseller do Sunday Times, colabora com alguns jornais, entre eles o The Guardian.
Depois de ter vivido em Itália e Espanha, regressou a Inglaterra, onde vive com o marido e o seu cão, e passa os dias a escrever e a desfrutar dos tempos livres com os netos.
O seu livro anterior, A Mulher do Plantador de Chá, foi bestseller do Sunday Times e selecionado para o Richard and Judy Bookclub, e está publicado na Topseller