domingo, 22 de janeiro de 2017

Excerto do romance - HELENA





Apresentando Ricardo Santana

"O relógio de parede marcava vinte e três horas. Ricardo contou as badaladas mentalmente. Há duas horas que estava ali sentado, tentando descobrir de onde conhecia aquela jovem atrevida e irreverente, que, ao contrário das outras mulheres, não se lhe atirara para o colo de imediato.
A casa estava em silêncio e o galgo afegão, já velho, estava esparramado aos seus pés fazendo-lhe companhia em troca de umas festas na cabeça.
Estava na hora. Há tanto tempo que não estava com uma mulher que não conseguia resistir à tentação.
Acendeu o último cigarro e puxou uma fumaça, enquanto ponderava o que ia fazer. Uma mulher jovem tinha as suas necessidades e Isabel não era excepção, quanto mais um homem como ele! Levantou-se, apagou o cigarro no cinzeiro de estanho e dirigiu-se à porta.
- O senhor vai voltar ou posso trancar a casa?
Martinho, chefe dos criados, e bastante velho na casa para se permitir questionar o patrãozinho sobre a sua vida, surgiu da zona de serviço. Ouvira os passos e pensou interceptá-lo.
- Não tranque a porta Martinho, estou de volta em duas horas.
- O senhor é que sabe. – e afastou-se a arrojar os pés para o local de onde saíra.
Ricardo saiu e fechou a porta atrás de si. Oito anos pesam muito na vida de uma pessoa. Nunca dera por Martinho estar tão velho ao ponto de arrastar os pés.
Embrenhou-se na noite em direcção à praça onde residia Isabel Carmona, e que ele conhecia tão bem desde que eram os dois bastantes jovens.
Helena, que há horas cogitava como desfazer o equívoco, pois sabia que não ia conseguir manter a farsa, viu-o sair de casa e caminhar pelo passeio até desaparecer na noite. Depois do que observara no jantar não era muito difícil descobrir o seu destino, e o que ia fazer.
Já tivera vários pretendentes, todos rapazes do campo, da lavoura, mas nenhum lhe despertou interesse. Não queria um marido analfabeto, queria alguém com quem pudesse partilhar ideias e que admirasse, como admirava Ricardo. Sorte da mulher que casasse com ele. A mãe dizia-lhe sempre que não entregasse a sua virtude a um homem qualquer, ela era especial, merecia um casamento com um homem de bem e com estudos. Helena suspirou e voltou para a cama. Por mais que tentasse, não conseguia ver naquele homem, o padrinho terno e companheiro que a ajudava nas lições, e a incentivava a ler, quando era criança. Deixara de o conhecer. Ricardo era outro homem, ou talvez ela tivesse mudado bastante nos últimos oito anos. 
 No andar de cima, no quarto do casal, Catarina dava voltas na cama.
- Dorme querida. O que se passa contigo?
- O teu filho não mudou nada. Mal chegou já arranjou cama onde se deitar. Saiu noite fora. Ouviste a porta da frente? 
- Ora Catarina, nunca quiseste que ele frequentasse o seminário, e agora queres que um homem feito faça vida de monge?
- Não, não quero... Mas escusava de procurar a…
- A viúva. Queres tu dizer. Estou velho, mas não estou cego. Ela atirou-se-lhe para cima, como sempre fez. Ricardo nunca negou fogo, é homem, e Isabel não é propriamente uma menina do coro. Porque a convidaste? Não esperavas que isto acontecesse? Eles sempre foram amantes, ou fingiste sempre que não sabias?
José Luís foi bastante incisivo, conhecia bem a mulher que tinha, mas ela ignorou a provocação. 
- O nosso filho devia casar-se. Tantas jovens que lhe tenho apresentado! Nenhuma lhe interessa o suficiente para a convidar a sair, nem uma única vez. 
- Algum dia isso vai acontecer. Não te preocupes. O teu receio é que a viúva o consiga conquistar. – afirmou. 
- Não quero uma viúva para esposa do meu filho! – quase gritou batendo com os braços nas coxas das pernas cobertas pela camisa de cambraia.
- Dorme Catarina. Deixa o rapaz. Ele é homem feito, tem direito a ter as amantes que quiser.

Catarina calou-se. Na verdade o marido tinha razão, mas Ricardo ainda era o seu menino. Para as mães os filhos nunca crescem, e para ela os filhos ainda eram crianças a proteger, apesar de eles rejeitarem a sua protecção. " 

1 comentário:

Lídia Craveiro disse...

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