domingo, 29 de janeiro de 2017

Excerto do livro HELENA #4

Apresentando Alex Steel

"Há dois meses que estava em Timor. Fora enviado directamente de Moçambique, onde ficou o navio João Belo, no qual tinha esperança de permanecer. Mas, ao aportar, foi imediatamente colocado noutro barco em direcção a Timor. Queriam ter a certeza que não voltava para Portugal, e com a movimentação de guerra em torno de Timor era impossível arranjar qualquer transporte civil para Portugal. Os mares e oceanos estavam pejados de navios de Guerra e nenhum outro barco se atrevia a cruzar as suas águas.  
Ricardo passava os dias nas instalações do exército português em funções de secretaria, e a sonhar com a forma de escapar dali. Há uns anos daria tudo para estar longe de casa e em paz, sem as maquinações da mãe e sem a polícia de vigilância nos seus calcanhares. Mas hoje não se importava de estar em Lisboa só para poder ver Helena. 
Ricardo fechou o “The Evening Post” e suspirou. De tédio e desconforto. Era Novembro e o calor era intenso naquela parte do planeta. Sentiu saudades do frio de Portugal. Do frio da Natal. Nem nos anos que permaneceu em Angola sentiu tantas saudades do país, mas, agora tinha um motivo forte para querer voltar: Helena.
Cada dia que passava desesperava por saber notícias de Helena. Há dois meses que lhe tinha enviado uma carta e, até agora, não recebera qualquer resposta. Com o rebentar do conflito bélico em Timor, e as movimentações dos japoneses no pacífico em redor da ilha, sabia que era difícil, a chegada de qualquer notícia.
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Faltavam umas semanas para o Natal e as saudades consumiam-no. Sentia falta daqueles olhos verdes, argutos e rebeldes, da silhueta cheia que ao passar deixava um rasto de perfume lavanda no ar.
Helena era uma flor silvestre mas com a sofisticação e a beleza de uma camélia de jardim. Ricardo recordava a meninice dela e o seu interesse por tudo o que existia dentro dos livros, no mundo e dentro da mente das pessoas. Até que um dia teve que partir e esqueceu-se da pirralha que o perseguia pela casa em busca de atenção e conhecimento do mundo. Quando se recorda desse tempo não consegue deixar de esboçar um sorriso ainda que o cenário não seja para rir. Aqueles tempos eram de felicidade pura e sem entraves. Ele era jovem e idealista e ela uma criança quase mulher que o idolatrava.  
Terminara de ler um comunicado do governo português a indicar que não se opunha a que os australianos e os holandeses defendessem a ilha desde que a soberania fosse sempre portuguesa, caso o Japão invadisse o território timorense. Ricardo temia que o panorama fosse mudar em breve, havia suspeitas que o Japão preparava algo em grande.
Ricardo pegou em papel de carta e começou a redigir uma para Helena endereçada à morada de Alexandre Steel.
 Era o dia seis de Dezembro de 1941, e começou por descrever a paisagem e o que de mais bonito existia à sua volta. Em cinco semanas a carta talvez chegasse ao destino, perto do Natal, e Helena ia ficar a saber de todo o amor que ele lhe devotava. Ricardo fez as contas por alto e dali a um ano estaria em Portugal de novo, livre, por bom comportamento e por ter cumprido as suas funções enquanto “voluntário” na colónia."

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