segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Excerto do livro - HELENA 2#


Apresentando Isabel Carmona

A roupa ficara espalhada pelo corredor fazendo rasto até à sala. Isabel não tinha criadas internas, pelo que estava à vontade para receber os cavalheiros que quisesse sem ficar mal falada. Escudava-se atrás da viuvez de um homem rico e influente para frequentar a sociedade Lisboeta e manter a vida que sempre tivera e Carminda era o seu passe de entrada. Por vezes tinha vontade de mandar Ricardo embora. Sabia que ele não a amava como ela, e a maior mágoa era ele nunca ter considerado casar com ela, tendo-a «obrigado» a casar com um homem de quem não gostava. 
Ricardo acariciava-lhe os cabelos revoltos enquanto ela o fazia torcer-se de prazer. Ondas de calor e espasmos desciam-lhe pelo baixo-ventre até quase explodir. Quase não aguentava. 
- Pára Isabel. Não me tortures mais. Também fazias isto ao Carmona?
Isabel afastou-se dele e riu-se. Jamais o falecido lhe permitiria que tomasse alguma iniciativa. Dava graças de ter conhecido o conde francês que fugira da ocupação nazi e que a entreteve, depois que Ricardo partiu do país.  
Ricardo ajudou-a a erguer-se e tombou-a no sofá.
- Não quero que te venhas dentro de mim, entendes?
- Sim, já sei. – e mostrou-lhe o preservativo.  
E com desejo mal contido trespassou-a até à profundidade da sua intimidade com estocadas até lhe arrancar gritos de prazer, só depois se deixou ir livremente numa torrente até ao fundo quente e húmido.
- Minha querida, tenho a dizer-lhe que faz as delícias de qualquer homem. Quem tiver a sorte de partilhar o seu leito, sabe o que é a arte de fornicar. Não creio que o falecido lhe desse o devido valor.
Isabel deu uma gargalhada.
- Na verdade, o falecido – Deus tenha a sua alma em descanso eterno – mal sabia o que era uma mulher. Creio que foi a mãe que lhe disse o que fazer na noite do casamento e, depois desse dia horrendo, nunca mais me tocou.
Ricardo deu uma gargalhada. Claro que sabia. Francisco Carmona casara com Isabel porque era a sua última hipótese de o fazer, e porque a mãe mandara. Aos quarenta e sete anos casou com uma jovem de vinte e dois, com fama de não ser pura – o que a renegou para o campo das encalhadas - e passado dois anos morreu de ataque cardíaco. Corriam boatos pela cidade sobre a sua virilidade e nem com o casamento se esfumaram.
Ricardo ergueu o tronco nu e levantou-se da cama. Vestiu a roupa interior, calças e camisa e preparava-se para se calçar quando ela reclamou:
- Não vai ficar?
- Claro que não minha querida. Estamos ambos satisfeitos, ou não? Porque se não estiver é só dizer. O acordo é esse. Não há compromissos ou mais envolvimentos.
- És mesmo um crápula! A tua fama precede-te. – disse Isabel com malícia e um beicinho afectado. 
- Nunca enganei ninguém. Todas as que se deitaram comigo estavam informadas do que poderiam esperar. – e terminou de calçar os sapatos.
- Volto a vê-lo?
- Claro. Não frequentamos os mesmos círculos?
- Sim, mas refiro-me à minha cama.
- Pois esse é um assunto ao qual não lhe consigo responder. Não agora.
Isabel fez ar de desiludida e Ricardo beijou-a mais uma vez e saiu pelo corredor. Não estava nos seus planos continuar a usufruir da cama de Isabel por muito mais tempo. Mal chegara os amigos colocaram-no ao corrente das novidades. A primeira era que a viúva do magnata dos hotéis da linha de cascais recebia homens de posses para pagar as contas. Tudo no mais absoluto segredo, diziam. Ricardo já sabia como eram os segredos em Lisboa. Todos sabiam, todos contavam, e todos pediam segredo a quem contavam. Um segredo guardado demorava vinte minutos a atravessar Lisboa, sobretudo nesta época em que a cidade vivia uma vida social sem precedentes; nos bares dos hotéis de luxo da Costa do Sol conviviam agentes secretos dos dois campos beligerantes que se escondiam sob a capa de adidos diplomáticos, refugiados ricos, diplomatas genuínos, estrangeiros de passagem, e agentes secretos portugueses, mais ou menos sérios. Mais ou menos sérios porque os espiões portugueses tinham fama de serem pouco reservados nas suas actividades de espionagem. 
Assobiando saiu para a rua de mãos nos bolsos e a mente num turbilhão. Não voltava ali. Aquela era uma armadilha perigosa. Quando mal percebesse ela estaria grávida e ele não queria bastardos pelo mundo, se não os fizera em África, não ia fazê-los em Lisboa. Mas, por outro lado, tinha pena que Isabel fosse uma meretriz. Gostava verdadeiramente dela e desde que ambos eram muito jovens partilhavam os prazeres da carne. Isabel era pura quando ele a deitou na sua cama em Vale de Marias, numa noite de verão escaldante. Isabel escapou-se do quarto que partilhava com a condessa e invadiu o quarto dele sem cerimónias. E ele invadiu a sua intimidade, e recebeu a sua pureza, oferecida de mão beijada. Nenhuma jovem de família sairia de tal acto sem mácula. Isabel não se importou mas pagou um preço alto pelo acto. 

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