sábado, 2 de julho de 2016

Posso confessar uma coisa?



Este romance que estou a escrever não está a sair como eu esperava. Cento e quarenta páginas depois, mais ou menos a meio do livro, a história está lá – eu sei que está -, mas está longe de ser um livro que o leitor se possa interessar. Eu mesma estou a ficar numa posição ambivalente: tem dias que gosto da história e outros em que penso abandoná-la.
E porque é que eu vos estou a contar isto? Perguntam vocês.
Nada de sustos. Escrever é mesmo assim. O objectivo de falar sobre o andamento de POR AMOR E POR AMBIÇÃO - o meu próximo romance - é um pretexto para partilhar com outros escritores independentes, fases do processo que é penoso para todos nós. Escrever não é só sonhos e inspiração, aliás, é muito pouco disso, é, sobretudo, trabalho duro.  

Voltando ao livro, quando leio segunda vez o que escrevi há cerca de quatro ou cinco horas, o meu primeiro pensamento é que o texto ainda vai precisar de muitas revisões, acertos de pormenores – como a cor dos cabelos da personagem feminina, que, na página trinta era preto e na página cem já é louro – e que mais valia deixá-lo arquivado na pasta de ABANDONADOS, para um dia qualquer, daqui a cinco anos, quando já for famosa ( ahahah!!), torna-lo num bestseller de vendas, do que me estar a massacrar dia após dia com as personagens que ainda parecem estranhas e os factos que não batem certo. Essa seria a forma mais fácil.

Claro que podia escrever o livro até ao fim, fazer duas a três revisões e depois contratar um revisor oficial que arranjasse o texto e o devolvesse todo bonitinho como todos os escritores famosos fazem. Como o José Rodrigues do Santos, a Margarida Rebelo Pinto, ou o Ken Follet fazem.
 Nops! Autor independente faz tudo sozinho ( mesmo!!) até ao dia em que ganhar dinheiro suficiente para contratar serviços. Ninguém que se autopublique consegue pagar 0,12 cêntimos a palavra, a não ser que ganhe muito bem e, para isso tem que possuir na mãos um bom contrato com uma editora a sério, não daquelas que você paga para publicar e depois fica com os livros para vender até ao ponto de não saber o que há-de fazer a cem livros ou mais, a não ser que conheça tanta gente que possa vender tudo num abrir e fechar de olhos, porque as pessoas tem vergonha de lhe dizer que não estão interessadas em comprar.

Mudando de assunto. O tema do livro que estou a escrever é interessante – para mim é, ou não estaria a escrever sobre ele – e as personagens também, mas o trabalhão que ainda vou ter a escrever e, mais tarde reescrever…bem…é isso que torna a escrita fantástica. Pensavam que eu ia dizer que mais valia desistir? Claro que não. Persistir sempre foi e é, o meu lema.

Esse é o busílis da questão de um escritor – tornar o sonho realidade.
 Este é um sonho que alcancei pela via da autopublicação, portanto, jamais irei desistir. Adoro escrever, criar histórias e inventar personagens, vivo feliz nesse mundo ( a minha filha mais velha diz que eu vivo no mundo dos livros, não sei porque é que ela diz isso, mas vivo mesmo) então porque é que havia de desistir só porque o livro não sai logo prontinho a ser lançado.


Eu acho que uma grande parte da escrita, a parte que não se aprende em nenhum curso de escrita criativa, é que às vezes a escrita tem muito pouco a ver com talento ou habilidade ou técnicas descritivas ou qualquer coisa assim. Isso é parte dela, mas a maioria é apenas persistência. Quando você está a estudar escrita criativa, seja na faculdade, em cursos com outros escritores, ou a ler sobre o assunto, podem ensinar-lhe até como personificar uma mesa, mas, provavelmente, não vão ensiná-lo a lidar com a sua própria desilusão, ao fazer os mesmos erros e sofrer com isso. Por exemplo, depois de você fazer a revisão três vezes ao seu livro, pedir para a sua leitora Beta ler e anotar erros e discrepâncias, rever outra vez e depois publicar finalmente, contente porque se livrou do livro, um dia, vem uma leitora e diz que a sua história é interessante mas o português não está bom e há falhas no enredo. Ora bolas! E você que pensava que estava tudo bem. E agora? Bom, tem duas alternativas. Ou ignora, mas fica sempre com a dúvida, ou faz aquilo que eu faria: pega no texto e volta a rever, afinal a leitora pode ter razão. Esta é uma das agruras da autopublicação de que ninguém fala: as críticas visíveis quatro centímetros abaixo da descrição do livro e que podem elevar ou derrotar o livro. Todos gostam de ter críticas de 4 e 5 estrelas, as de 3 tolera-se, mas de 1 ou de 2, é de gritos. Ninguém suporta. Aprende a ignorar. E se o leitor for mesmo mauzinho, que apenas vêem o mau do livro e só dão valores baixos? Também existem leitores assim, e há que lidar com eles ignorando-os. Mas, as críticas são o melhor amigo do escritor autopublicado, para o melhor e para o pior. Aprendo imenso com as críticas e tento sempre melhorar a qualidade da minha escrita, mas também sei reconhecer um avaliador que apenas quer destruir um livro.  Bom, e contra esses, ainda não há antidoto. É aguentar.

Voltando ao livro, não se preocupe se o seu não está a sair como esperava. O primeiro esboço é apenas você mesmo contando a história a si próprio. Isso conforta-o? A mim sim. Deixei de me angustiar com o primeiro esboço do livro. Vou contar o que aconteceu com o meu terceiro livro. Creio, ainda hoje, que a história que tinha na minha mente era boa, mas a meio do livro, a escrita não fluía e abandonei-o. O livro estava quase todo postado no Wattpad, e um leitor homem, começou a ler e a dar a sua opinião. Comecei a ver o livro de outro prisma e finalizei-o com muito prazer, posso até dizer que ainda é o meu livro preferido.

Outro aspecto sobre o qual não lhe falam sobre a vida de escritor em busca da fama ( ahaha!) são as cartas de rejeição quando envia o seu exemplar para alguma editora. Não desista, mesmo que possa ter o seu quadro magnético forrado com elas. Ser rejeitado não significa que a sua escrita seja má, mas sim que as editoras não apostam em novos escritores, querem apenas nomes sonantes dos mídia – que por vezes usam um ghostwriter - e as vendas estão asseguradas. Persista e lembre-se que a AMAZON pode realizar o seu sonho sem gastar um tostão.

Um dia quem sabe? Acredita em si? Ainda bem, porque se não acreditar, os outros também não vão acreditar.

Pelo menos por agora, eu e você podemos descansar no processo de criar uma história, mesmo que isso signifique começar com algo terrível, mesmo ruim. Afinal, o que é a arte? Criar algo de valor a partir do nada? Entre tantas coisas do processo criativo.

Duas coisas que todos os escritores bem-sucedidos têm em comum: O DESEJO E A PERSISTÊNCIA.
Então, se o seu romance é uma merda agora, mas é o que está escrevendo, termine o livro e espere umas semanas. Quando começar e fazer a revisão vai ver que o milagre se dá. Depois é começar uma aventura de corta e coze, tira daqui e põe ali e, aos poucos ele vai ficando bom com a reescrita. Reescrever é fundamental para que a sus história tenha hipóteses de ser lida.  

NÃO SE ESQUEÇA, O DESEJO DE ESCREVER E A PERSISTÊNCIA EM MELHORAR, VÃO FAZER DE SI – E DE MIM – UM ESCRITOR MELHOR.

Até ao próximo post, bem hajam


Lídia Craveiro

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