sábado, 2 de abril de 2016

Promoção de ebook - QUERIDO ESPIÃO

Excerto do livro
"As esplanadas estavam repletas de mulheres e homens e escutavam-se vários idiomas em grande algazarra. Dona Catarina virava a cabeça de lado para lado tentando evitar olhar os longos decotes das mulheres, as pernas nuas a mostrar um pedaço de joelho e os cigarros pendurados entre os dedos, nos quais davam longas fumaças largando espirais de fumo enquanto bebericavam vinho em pé de igualdade com os homens,
- Que horror! É a isto que nos sujeitam? Deviam fechar as fronteiras. Estão a arrastar os nossos bons costumes. Os homens serão os maridos das senhoras? Lá se vai o nosso descanso. Como é que os pais podem educar as filhas com exemplos destes? Não acha Lorena? A menina não parece chocada?
- Oh! Claro que estou madrinha. – mas por dentro ria-se e apreciava a liberdade daquelas mulheres que se atreviam até a beijarem os maridos ou namorados em plena rua.
- Não vou sujeitar-me a isto muito mais. Prefiro enfrentar os bicharocos do campo a olhar para estas indecências! Oh! Que vergonha! Viu? Viu aquela mulher beijar o homem com a…Credo!
Catarina Santana levou o lenço de cambraia à boca para disfarçar o assombro.
Lorena assentiu. Não podia contradizer Dona Catarina Santana. Uma senhora daquele calibre ninguém se atrevia a discordar.  Como seria beijar assim? Nunca lhe passara pela cabeça poder fazê-lo daquela forma, mas uma certa excitação cresceu-lhe pelo íntimo. Se estivesse ali com Ricardo o que é que ele diria? Por falar em Ricardo, não voltara a vê-lo desde o dia anterior, mas não se atrevia a perguntar por ele à madrinha. 
- Não vou tolerar mais esta falta de decoro. Lorena! Vamos embora. Faça sinal ao motorista para se aproximar com o carro. Hoje mesmo vou organizar um jantar para me despedir das pessoas. Enquanto durar esta confusão não volto a Lisboa. Maldita guerra, então esse Hitler não os podia…ficar lá com eles, com essas pessoas. – disse com desdém.
- Ora madrinha, basta apenas evitar estes locais.- atreveu-se a sugerir. – Não precisa de se enterrar no campo. – disse pensando que quem iria ser mais prejudicada seria ela que teria que a acompanhar.
- Credo menina! Nem pensar. O senhor presidente do conselho devia proteger-nos destas…Coisas. – rematou. – Já imaginou se a guerra começa a sério? Vamos ser invadidos!
Lorena não comentou. Sabia as opiniões da madrinha sobre os direitos das pessoas e uma raiva surda teimou em vir à tona. Apesar de estar ali a ser tratada como se fosse da família, estava saturada de ver os pais a ganharem uma miséria de ordenado e a prestarem vassalagem aos Santana. Só Ricardo parecia não ser como eles. Agora, que tinha outro entendimento suspeitava que a partida dele se dera ao facto de discordar das opiniões do estado. "


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