segunda-feira, 14 de março de 2016

Querido Espião - Lançamento dia 20 de Março

Lisboa, 1941
(excerto do livro)
"- É um homem muito… muito… garboso, não acha minha querida? – disse a baronesa entre dentes.
Lorena pensou em cavalos. Garboso é uma palavra que se aplicava a um cavalo. Não deu uma gargalhada porque a madrinha não lhe perdoava a falta de decoro, mas sufocou o riso. 
 - É ele que a faz sorrir assim… com esse ar tão…tão… luminoso? – disse a mulher aos solavancos.
A baronesa estava tão maquilhada que mais parecia uma pintura burlesca e Lorena estremeceu, não de frio mas com medo e de espanto. Seria assim tão transparente? Ou a velha baronesa Carminda Alves com um apelido alemão impronunciável, era demasiado perspicaz? De facto estava a olhar para Ricardo há um bom tempo. A velha senhora tinha razão. Era como se fosse a primeira vez que o via. Nunca tinha reparado como ele era um homem bonito e charmoso, embora tivesse vivido quase toda a sua vida perto dele mas era criança quando Ricardo partiu de casa. Fazia mais de oito anos.   
- Pensamentos maus não se revelam baronesa. – aventou em resposta à provocação da mulher receosa que ela lhe lesse os pensamentos habilidade em que a aristocrata era muito boa.  
- Ora minha querida, sei bem do que fala. Mas cá entre nós, são esses que dão sabor à vida. Os pensamentos maus, sabe? – e deu-lhe uma palmadinha na mão fazendo soar a quantidade de pulseiras de ouro que ostentava no braço, qual guizo de cobra cascavel. – Todos os que estão aqui sentados nesta longa mesa pautam por serem santos e apostava as minhas pulseiras – chocalhou-as no braço - em como estão a fazer conjecturas acerca de Ricardo e da viúva sentada ao lado dele, mas sabe uma coisa?
Lorena olhou-a tentando decifrar o que a nobre criatura enrugada queria insinuar. Ficar sentada à mesa junto a Carminda era sempre uma aventura no mundo da bisbilhotice.
- Ele é o único verdadeiro aqui. Todos os outros são uns hipócritas. Acredite em mim. Conheço-os a todos muito bem. 
Tendo em conta a fama de possuir uma língua viperina Lorena não duvidou da nobre criatura.  
Ricardo Cabral de Santana estava sentado ao lado de Isabel Carmona, a viúva jovem, e a madrinha fuzilava o filho Ricardo com o olhar. Catarina Santana queria vê-lo casado mas não com uma mulher naquele estado civil. 
Lorena atreveu-se a erguer o olhar para o outro lado da mesa e os seus olhos embateram nos dele. Ricardo fez-lhe um aceno de cabeça em sinal de cumprimento e ela respondeu sem conseguir evitar um rubor na face.
- Tome cuidado minha querida. Não se apaixone por ele. É um destruidor de corações. Mas é um homem – suspirou – com tudo no sítio, desde o exterior ao interior. Se eu fosse mais nova... – e não concluiu a frase deixando Lorena curiosa. 
Lorena levantou os olhos do prato e dispôs-se a apreciá-lo pela mira da velha baronesa. Se ela dizia que ele era tudo isso ia verificar: rosto quadrado e bem definido; estrutura óssea harmoniosa; lábios normais; nariz aquilino, fronte alta, e uns olhos castanhos mel que quase incendiavam a mulher com quem conversava. Isabel Carmona estava derretida por ele, quase raiava a falta de decoro. Não fosse ela a dama de companhia da baronesa e Lorena quase apostava que a madrinha nunca a receberia em sua casa.
 Sim. admitia que o padrinho Ricardo era um homem muito interessante. Ricardo conversava com a viúva e trocavam sorrisos. Ficou a olhar para o par sem conseguir despegar os olhos e uma inquietação súbita, desconhecida, fez-lhe disparar o coração em taquicardia por segundos.  
- Disfarce minha querida - disfarce.- aconselhou a baronesa.
- Dona Carminda, a senhora hoje só fala por enigmas. Não entendo onde quer chegar!
- Enigmas? Ora! Ora! Já lhe ouvi chamar nomes mais… impróprios. 

Lorena franziu o sobrolho e pensou que a velha - apesar de divertida por vezes - estava a ficar esclerosada e inconveniente." 

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