quarta-feira, 25 de novembro de 2015

PROMOÇÃO GRÁTIS HOJE!

(...)Caminhou pelas ruas repletas de lojas das marcas de costureiros famosos e outras mais vocacionadas para o cidadão comum, e foi consultando o mapa que retirara do balcão do hotel. O seu destino era a Praça Major, era ali que queria sentar-se numa esplanada a comer uma deliciosa paelha. Mas há medida que ia percorrendo as ruas ouviu vários turistas ingleses falarem nos preços altos e decidiu procurar um restaurante fora da Praça. Passou por uma casa de tapas e o bom aspecto dos pratos dispostos nas mesas fê-la mudar de ideias. Parou em frente da esplanada e prontamente um garçon lhe indicou uma mesa. 
- Por favor signõra. – e indicou-lhe uma mesa vaga no meio das outras.
- Gracias. – agradeceu e dirigiu-se à mesa.
Os clientes, na maioria casais e famílias, conversavam alegremente em espanhol, alto como era típico do povo. Sendo filha de uma espanhola sabia muito bem como era. A esplanada era pequena e Matilde pensou não haver lugar para ela. Olhou em redor procurando uma mesa vazia e, na última mesa da quarta fila, um homem distintamente bem vestido pousou os olhos nela. Matilde sustentou-lhe o olhar, e teve a vaga sensação de o conhecer de algum lado. Ele acenou-lhe com a cabeça, um sinal cavalheiresco de cumprimento e ela sorriu. Ao passar por ele reparou nuns olhos castanhos doces, parecendo sofridos e no cabelo já grisalho, num rosto com aparência dura, mas que não deixavam ninguém indiferente. Era bonito. Vestia um fato castanho-escuro, e uma camisa branca. Intimidada pelo olhar insistente do homem- que parecia estar a divertir-se com ela – baixou os olhos e reparou nos sapatos caros. Sentindo-se desajeitada e desconfortável, - aquela cena trouxe-lhe à memoria a forma como conheceu António – desequilibrou-se momentaneamente em direcção à mesa onde o homem estava sentado e um copo de vinho voou aterrando em cima das calças do desconhecido tão elegante e charmoso.
O homem franziu o cenho e disse:
- Oh, que torpe! – levantou-se para secar as calças com guardanapos de papel fazendo uma cara carrancuda.  
Ao olhar para os estragos da sua acção, quase ficou em choque. Desejou ser uma avestruz e enviar a cabeça na areia. Falta de tacto, a sua!
- Lo siento, señor.
 E virou as costas correndo pela rua em direcção à Praça Maior. Ainda ouviu a voz de um homem a chamá-la mas prosseguiu em direcção a um lado qualquer que a afastasse dali.
Correu uns metros e parou porque as lágrimas cegavam-na. Sentiu-se a pessoa mais estupida do planeta. Uma mulher de trinta e sete anos a correr pela rua e a chorar só mesmo uma cena de algum filme de Hollywood, e neste caso era mesmo de Bollywood.  
Secou as lágrimas com a costa da mão e começou a andar mais devagar. Não voltava a sentar-se – pelo menos esta noite – num restaurante enquanto estivesse tão cansada. Tinha tendência para ser desastrada quando estava cansada. Parou junto a uma casa de sandes para pedir algo que comer e um homem com uma série de malas de senhora coloridas, enfiadas no braço, disse-lhe em espanhol com sotaque árabe.
- São verdadeiras, minha senhora. Veja a qualidade. Quer comprar. Vendo-lhe duas por cinquenta euros. E estendeu-lhe duas malas com o símbolo da Gucci. Uma azul e outra verde.
- Não obrigado. Não quero comprar. – disse de forma firme.
- Vá lá minha senhora. São as últimas, compre que não se arrepende, são verdadeiras. – insistia o homem alto com cabelo encaracolado preto e uma tez morena deixando adivinhar a sua origem magrebina.
Matilde começa a desesperar. Não estava com paciência para ser assediada por um vendedor de rua, clandestino quase de certeza, e que tinha dificuldade em aceitar um não.
- Não quero, obrigado. – voltou a frisar. E desistiu de pedir o bocadillo de presunto.
Afastou-se pela rua, maldizendo a sorte e a vida em silêncio mas o homem continuou a segui-la. Matilde acelerava o passo e deixou de ouvir o que o homem lhe dizia. As pessoas passavam indiferentes ao drama que ela estava a viver. Assustada, com o coração quase a saltar-lhe pela boca, começou a olhar em todas as direcções em busca de um polícia. A praça parecia ainda longe e o homem subitamente agarrou-a por um braço, puxando-a para um canto da rua movimentada. Matilde esbracejou e quando ia a dar um safanão no homem, uma figura alta e distinta interpôs-se entre ela e o vendedor de malas. Assustada, gritou alto. As pernas ficaram bambas e a cabeça girou. Ia desmaiar. O pânico consumiu-a. Sentiu um braço a rodear-lhe os ombros e uma voz masculina com timbre de tenor soou-lhe quase aos ouvidos apesar de estar meio desfalecida. 
- Creio que a senhora já disse que não queria ser incomodada.
- Ora senhor, só queria vender-lhe uma mala. Não faço mal a ninguém.
Vendo dois policias a caminharem na direcção deles o vendedor correu, desaparecendo nas ruas estreitas.
Um dos polícias aproximou-se para averiguar o que se passava enquanto outro foi no encalço do vendedor.
Uma mulher estendeu-lhe uma garrafa de água e Matilde recusou educadamente, desenvencilhando-se do braço do homem que a amparava. Devia estar muito mal-encarada porque as pessoas à sua volta ofereciam ajuda. Umas diziam-lhe que fosse ao hospital, parecia em choque, outras que se sentasse um pouco para recuperar. 
- No pasa nada, todo está bien, gracias. – disse o homem para o grupo que os rodeava.
As pessoas dispersaram e ele voltou-se para ela e disse:
- Vamos, yo te ayudaré.
 Olhou para o rosto do homem e levou um choque. Baixou os olhos que pousaram na mancha de vinho que ocupavam grande parte do tecido de linho das calças dele. Era o mesmo homem.(...) 

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