segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Gonçalo Coelho: o escritor e o homem por detrás do "Milagre de Yousef"


O escritor Gonçalo Coelho é daquelas pessoas que se simpatiza facilmente mesmo sem o conhecermos pessoalmente. Comecei a ler um dos seus livros “O Milagre de Yousef”, penso que já lá vai quase um ano, e foi com agrado que me deparei com um livro muito bem fundamentado e escrito e que considero um documento valioso para além de ter uma parte romanceada que me apaixonou bastante. Poderia dizer mil e uma coisas sobre os livros do autor, porque os li, mas achei que seria bom apresentar o homem e o escritor por detrás dos livros. Fiz um convite ao Gonçalo para que nos falasse dele ao qual acedeu prontamente.

Quem é o Gonçalo Coelho? Fala-nos um pouco de ti.


               Gonçalo Coelho é a maior parte do tempo um cidadão comum e pacato que mora em Berlim Leste, pai de uma linda filha de três anos, casado e trabalha na gestão da qualidade num dos mais conceituados fabricantes automóveis do mundo. De vez em quando, pela calada da noite, dá-se então a metamorfose... surge o Gonçalo Coelho escritor. Alimenta-se dos retalhos do seu passado e, em particular, dos locais onde viveu (Portugal, Inglaterra, Brasil, Alemanha), as pessoas que conheceu e aquilo que lá viveu. Um dos seus habitats prediletos é o tema da diversidade cultural que acha que anda a ser tão mal tratado por esse mundo fora. Em vez de ser abordado para criar pontes, é antes abordado para desenhar fronteiras, um meio de dividir pessoas e povos através da identificação das suas diferenças. Permitam-me a seguinte citação do meu livro “O Milagre deYousef” que ajudará a conhecer melhor o que penso:
“Vista dos céus a Terra parece toda envolta num interminável marasmo. Seguiu-se a paisagem do Irão. É claro que vista do céu a Terra também não tem fronteiras, o que talvez seja indicativo de que a Terra aos olhos de Deus, ou de Alá, palavras que significam igualmente o Deus único supremo em línguas diferentes, nunca teve fronteiras, que essa terá sido pura invenção do homem, uma linha divisória entre homens que Deus nunca pretendeu mas que terá, por qualquer razão, permitido. Heresia, dirão alguns. Mas será que a existência de fronteiras, enquanto linhas que separam os homens, não é ela própria heresia? Não deveríamos ser todos irmãos? Tanto mais que a ideia de fronteira está ela própria, desde sempre, intimamente ligada à guerra. Não houvesse entre os homens a ideia de fronteiras terrestres entre grupos de homens que se creem mais irmãos entre si do que com os outros do lado de lá da linha divisória e quem sabe não haveria nem um décimo das guerras que houve ao longo da História Universal. Mas aí está, inexorável, a fronteira. A linha que diz: deste lado mando eu, do outro mandas tu. Deste lado és nacional do outro és estrangeiro.”

   Como começaste a escrever e de onde te surgiu essa vontade?


A primeira vez que me recordo de sentir prazer na criação de um texto foi num dos últimos anos do liceu. Foi um texto sobre Camões e a professora leu-o à turma, classificando-o como um dos melhores daquele conjunto de resultados dos trabalho de casa.
No décimo segundo ano houve um outro fator de que nunca mais me esqueci e que me motivou muito a escrever. Depois de uma professora fabulosa no décimo e décimo primeiro, tive uma professora no décimo segundo que embirrou comigo desde o primeiro segundo em que me pôs os olhos em cima. Desci de 16 em 20 automaticamente para uma nota, por vezes, negativa sem nunca compreender porquê. No final do ano, porém, nas provas específicas, tirei 19 em 20, a melhor nota do liceu. Devo adicionar que as provas específicas eram anónimas, de modo que os professores não sabiam de quem era o teste que estavam a corrigir. Depois disso fui estudar Engenharia Mecânica para a Universidade de Sussex em Inglaterra. Nunca mais vi essa professora até hoje.

      Quantos livros já escreveste?

Três. O primeiro foi editado por uma chamada editora convencional. Publiquei num blogue e fui convidado a publicar na editora. Não recebi um tostão de direitos de autor, apesar de ter visto num relatório de vendas que nos primeiros seis meses se venderam mais de seiscentos exemplares. Houve alguns fãs, houve menções nos jornais e revistas, houve entrevistas, houve livros nas principais livrarias e hipermercados portugueses. Houve críticas infundadas, gratuitamente desagradáveis, como da Isabel Coutinho no Público. Houve presenças agradáveis em congressos literários. Foi uma experiência e tanto. A editora deixou de existir. Eu deixei de confiar em editoras, não todas, mas a maior parte. O livro chama-se Poker (2008).
Depois disso dediquei-me a escrever um livro muito ambicioso. Trata do choque entre Cristianismo e Islão. O grande tema civilizacional dos nossos tempos. Tem por base a biografia de um terrorista que fica amnésico. Chama-se “O Milagre de Yousef” (2014).  Ultimamente dei início a uma série com a publicação da “Fugitiva” (2015).

     Qual foi o livro que te deu mais prazer escrever?

Todos me deram igual prazer. Pode parecer clichê mas é a mais pura verdade. Sempre que termino um capítulo sinto um prazer e uma adrenalina indescritíveis. Tenho a certeza que outros escritores saberão do que falo. Considero que o meu livro mais completo é “O Milagre de Yousef”, pela pesquisa histórica subjacente, pelas borboletas vermelhas (é ler, é ler), pela biografia do Yousef, pelo tema, enfim não me ponham a falar no assunto, senão não paro mais.

     Como te surgem as ideias para os livros?

Através do que vejo no dia-a-dia, das conversas em que participo, da atualidade noticiosa e, por último, daquilo que leio.

     Já concorreste a algum concurso literário?

Prémio Leya, há alguns anos atrás com o Milagre de Yousef.

     Já publicaste em alguma editora convencional? Onde publicas actualmente?

Já abordei a minha experiência com uma editora convencional. O mais positivo que retiro dela foi que me motivou a querer escrever melhor, com mais qualidade e métodos mais profissionais. Foi dessa vontade que nasceu “O Milagre de Yousef”. Atualmente publico os meus próprios livros na Amazon e não os confiaria a qualquer editora, sem algumas garantias. Está feita a ponte para a questão seguinte...

     O que pensas acerca da auto-publicação?

A auto-publicação é simplesmente impecável. Total controlo sobre o que publico, quando e por que preço. Além disso, recebe-se sempre os direitos de autor no fim do mês. É claro que uma editora tem outros recursos em termos de distribuição e divulgação mas, no geral, penso sinceramente que não compensa a não ser que seja realmente fiável, apoie verdadeiramente o autor, não o considere apenas mais um sem importância e, além disso, se pagar em dia e fizer boa divulgação. Não me parece que haja assim tantas editoras que satisfaçam estes requisitos. Além disso, ultimamente divirto-me bastante a criar capas para os meus livros.

      Algum conselho aos autores independentes?

Ler, escrever, dar a conhecer ao público. Aprender, melhorar e voltar ao início. É um ciclo muito simples. Adiciono ainda que, hoje em dia, há imensas formas de dar a conhecer os nossos textos ao público como, por exemplo, wattpad, blog, auto-publicação e grupos de escrita criativa.

    Projetos para o futuro?




Concluir a continuação da Fugitiva. Além disso “O Milagre de Yousef” está a ser divulgado nos E.U.A. e na Suécia por intermédio de dois tradutores profissionais que se apaixonaram pela obra e se ofereceram para a divulgar junto de editoras locais. Entretanto, tenciono continuar a divulgar tanto “O Milagre de Yousef” como a “Fugitiva” junto do público de língua portuguesa.

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