quarta-feira, 6 de maio de 2015

Sonhos Adiados - Gratuito hoje na amazon em ebook.



" Nunca sentiu falta de casa, da mãe ou da cidade onde residiu toda a sua vida. Mas sabia que ia sentir falta das amigas e de dançar. Felizmente já tinha par e onde dançar. Adorava a magia do tango argentino e das valsas vienenses dançadas nos grandes salões. Foi na escola de danças de salão – que frequentava duas vezes por semana- que conheceu Étienne. Estava ali para melhorar a sua performance dizia. O rapaz não tinha ritmo e cruzava os pés um no outro, indo para a esquerda quando era para ir para a direita. Mas ninguém se atrevia a dizer-lhe. Na verdade ele não estava lá para aprender nada. Qualquer pessoa que se esforçasse um pouco conseguia aprender. Ao fim de dois meses concordou em fazer par com ele, porque mais ninguém queria. Um suplício. Mas como o sexo valia por tudo o que falhava a seguir, aguentou muitas pisadelas até que aos poucos ele deixou de ir. Pobre Étienne tão ridículo. Ainda bem que estava longe, muito longe.
Mas agora estava na presença de Thierry e, talvez por tentar encontrar-lhe defeitos e motivos para se afastar dele, comparava-o a Etiénne. Distraída com os seus pensamentos, nem reparou que ele a tinha chamado.
- Chérie! Ma petit chérie. – disse Thierry.  
Era assim que a tratava desde que se tinham conhecido. Carinhoso e cuidador. Estava longe daquele vaqueiro que conheceu no início e que parecia ter um olhar duro com qualquer segredo escondido.
- Oui, c´est moit. – respondeu a rir.
- Pareces o anúncio da Cacharel. – disse, brincando com o assunto. -Vou para o campo, até logo. – disse olhando para ela pelo canto do olho.
- Não vais sempre? – obsevou sarcástica.   
 - Qualquer coisa que precises liga-me para o telemóvel.
Abanou a cabeça em sinal de concordância e concentrou-se no trabalho.
- Aline? – chamou-a. Estava parado à porta.
- Sim Thierry?
 Era sempre a mesmo ritual todos os dias, a mesma conversa e hoje não estava de muito bom humor.
- Estás com algum problema? Precisas de alguma coisa? – perguntou preocupado.
Não precisava de nada e muitas vezes desejava que ele não fizesse essa pergunta, deixava-a sem saber o que lhe responder.
Aline pegou numa pequena borracha e atirou-lha acima. Thierry apanhou-a com a mãe e devolveu-lha. Saiu a rir. Aquele jogo entre eles começou a ser usual.
Thierry alimentava a esperança de quebrar o muro que ela tinha erguido à sua volta. Sabia que Aline guardava consigo um sofrimento muito grande, um segredo talvez, ninguém vem trabalhar para longe de casa sem ter um motivo bem forte.
Desde o primeiro instante em que a viu no restaurante, a servir à mesa, ficou encantado com a simpatia e os gestos graciosos dela- como quase todos os homens da vila – mas, o que mais o atraiu, foi a forma como se deslocava em redor das mesas, parecia deslizar, como se dançasse. Mais tarde percebeu porquê. Aline tinha música no corpo, toda ela era uma sinfonia, um tango angentino, ou uma valsa.
Aline era sem dúvida uma mulher linda e vistosa e sabia isso, punha os homens malucos só de aparecer no café. Parecia mais velha do que os seus vinte e seis anos, talvez pela postura de maturidade que aparentava ao servir ao balção e nas mesas. Respondia sempre com simpatia, mas não dava espaço para graças ou piropos e, ninguém se atrevia a avançar qualquer tipo de comentário mais atrevido. Mas, soube no instante em que falou mais de cinco minutos seguidos com ela que guardava um segredo, sentia a barreira que ergueu à sua volta propositadamente para não deixar passar ninguém."


Aproveito para pedir descaradamente a quem descarregar o ficheiro e ler o livro que deixe um comentário caso gostem da história. Autor independente depende dos comentários dos leitores. Obrigado. 

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