domingo, 3 de maio de 2015

Excerto do próximo romance

Foto tirada pela autora numa rua de Palma
O seu destino era a Praça Major, queria sentar-se numa esplanada a comer uma deliciosa paelha. Mas há medida que ia percorrendo as ruas ouviu vários turistas ingleses falarem nos preços altos e decidiu procurar um restaurante fora da Praça. Passou por uma casa de tapas e o bom aspecto dos pratos dispostos nas mesas fê-la mudar de ideias. Parou em frente da esplanada e prontamente um garçon lhe indicou uma mesa.  
- Por favor signõra.– e indicou-lhe uma mesa vaga no meio das outras.
- Gracias. – agradeceu e dirigiu-se à mesa.
As pessoas sentadas, na maioria casais e famílias conversavam alegremente em espanhol, alto como era típico daquele povo. A esplanada era pequena e na última mesa da quarta fila, um homem distintamente bem vestido pousou os olhos nela. Matilde olhou e teve uma vaga sensação de o conhecer de algum lado. Ele acenou-lhe com a cabeça, um sinal cavalheiresco de cumprimento e ela sorriu. Ao passar por ele reparou nuns olhos castanhos doces, parecendo sofridos e no cabelo já grisalho, num rosto com aparência dura, mas que não deixavam ninguém indiferente. Vestia um fato castanho-escuro e uma camisa branca. Intimidada pelo olhar insistente do homem- parecia estar a divertir-se ao olhar para ela – baixou os olhos e reparou nos sapatos italianos atacoados. Sentindo-se desajeitada e desconfortável, - aquela cena trouxe-lhe à memoria a forma como conheceu António – desequilibrou-se momentaneamente em direcção à mesa onde o homem estava sentado e um copo de vinho voou aterrando em cima das calças do homem.
O homem franziu o cenho e disse:
- Oh, que torpe ! – e levantou-se para secar as calças com guardanapos de papel fazendo uma cara carrancuda.  
Ao olhar para os estragos que fez, Matilde ficou envergonhadíssima com a sua falta de tacto e, incomodada, pediu desculpa e virou as costas correndo pela rua em direcção à Praça Maior. Correu uns metros e parou porque as lágrimas cegavam-na. Sentiu-se a pessoa mais estúpida do planeta. Uma mulher de trinta e sete anos a correr pela rua e a chorar só mesmo uma cena de algum filme de Hollywood. 
Secou as lágrimas com a costa da mão e começou a andar mais devagar. Não voltava a sentar-se – pelo menos esta noite – num restaurante enquanto estivesse tão cansada. Tinha tendência para ser desastrada quando o cansaço tomava conta dela.
Parou junto a uma casa de sandes para pedir algo que comer e um homem com tipo de vendedor ambulante e com uma série de malas de senhora coloridas enfiadas no braço disse-lhe em espanhol com sotaque árabe.
- São verdadeiras, minha senhora. Veja a qualidade. Quer comprar. Vendo-lhe duas por cinquenta euros. E estendeu-lhe duas malas com o símbolo da Gucci. Uma azul e outra verde.
- Não obrigado. Não quero comprar. – disse de forma firme.
- Vá lá minha senhora. São as últimas, compre que não se arrepende, são verdadeiras. – insistia o homem alto com cabelo encaracolado preto e uma tez morena deixando adivinhar a origem magrebina.
Matilde começa a desesperar. Não estava com paciência para ser assediada por um vendedor de rua clandestino e que tinha dificuldade em aceitar um não.
- Não quero, obrigado. – voltou a frisar. E desistiu de pedir o bocadillo de presunto.

Afastou-se pela rua, maldizendo a sorte e a vida em silêncio mas o homem continua a segui-la.  Matilde acelerava o passo e deixou de ouvir o que o homem lhe dizia. As pessoas passavam indiferentes ao drama que ela estava a viver. Estava deveras assustada e começou a olhar em todas as direcções em busca de um polícia. A praça parecia ainda longe e o homem subitamente agarrou-a por um braço, puxando-a para um canto da rua movimentada. Matilde esbracejou e quando ia a dar um safanão no homem, uma figura alta e distinta interpôs-se entre ela e o vendedor de malas. Assustada, gritou alto. As pernas ficaram bambas e a cabeça girou. Um braço a rodeou-lhe os ombros e uma voz masculina com timbre de tenor soou-lhe quase aos ouvidos a acalmá-la fazendo-a voltar à realidade. 

Sem comentários: