quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

PROMOÇÃO DE SONHOS ADIADOS



"O ventou levantou-se numa rajada forte, trazendo consigo cheiro a pinho queimado de lareira acesa e, saiu fugindo pelo canal formado pelo rio a agitar os frondosos salgueiros que pendiam sob a água. Dois gatos miaram em cima de um telhado e assanharam-se numa briga pela disputa de fêmea. Um homem ébrio caminhava pelo passeio, tentando atravessar a ponte sem tropeçar nos próprios pés proferindo impropérios contra alguém desconhecido. O mundo parou naquele instante. 
- Não quis esperar-te no café. – disse finalmente. - Tinha esperança que a Marie não me atirasse com um balde de água. – disse Thierry.
Mostrou um sorriso doce e calmo mostrando uma fileira de dentes brancos bem cuidados.
- Não corres esse risco! Ela não está. – respondeu Aline.
Ficou parada em frente dele, sentindo-se a pessoa mais pateta à face da terra. Pela primeira vez na sua vida não soube o que fazer. Ninguém diria que era uma rapariga com experiencia em matéria de homens.
- O que é que eu estou aqui a fazer perguntas tu? – disse Thierry.
- Sim. O que é que estás aqui a fazer ao frio quase à meia-noite
- Vim ver-te Aline. Não aguento mais estar distante de ti. Não é novidade para ti, pois não? – perguntou.
Aline colocou os olhos no chão sem saber o que responder. Seria verdade? E Sylvie?
- Presumo que não. Aliás já nem sei. Anda. Entra. A Marie não está e aqui está um pouco de frio.
Ele desviou-se da frente da porta e ela meteu a chave na ranhura abrindo-a.
 Entrou – deixando a porta aberta- e foi acendendo as luzes pelo largo corredor até à sala e  depois na cozinha.
- Tens a certeza? – perguntou da entrada. – Não quero invadir a casa de madame Marie. Amanhã todos vão saber que eu estive aqui. A vizinha do lado veio várias vezes à janela. Não te importas? – perguntou já dentro de casa enquanto fechava a porta da rua.
- Acredita que já passei por coisas piores do que uns vizinhos bisbilhoteiros e acho que Marie não se vai importar.
- Tu é que sabes. – disse sorrindo. – Não te quero arranjar problemas.
 - Então o que é que queres Thierry? Porque depois da tarde de hoje eu não sei que pensar? – disse olhando a direito para ele.
- Aline…Aline, Aline! Não queres ver pois não? Há quanto tempo trabalhas para mim?
- Uma eternidade. – disse muito séria.
Foi tão dura e fria que ele mudou de cor. Estava enganada. Talvez não quisesse ver mesmo.
- Estou a brincar contigo. - justificou-se de imediato tentando remediar o estrago que a resposta fez. - Bom…- disse Aline com alguma hesitação. - Vamos… sentar na sala. Ofereço-te um cálice de Porto e…
- Aceito. – respondeu ele prontamente antes que ela mudasse de ideias.
Thierry dirigiu-se à sala e sentou-se numa poltrona de veludo verde seco, virada para a lareira, a admirar a decoração da casa. Rústica e confortável. A maioria dos móveis eram relíquias de família a avaliar pelo aspecto antigo – mas bem cuidado- que apresentavam. Esboçou um sorriso. O que é que teria feito se Marie estivesse em casa? A senhora ter-se-ia assustado ao ouvir parar uma Harley barulhenta à sua porta. "


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