domingo, 15 de fevereiro de 2015

GABRIELLE

Apesar dos anos passados, tudo permanecia igual em Central Park, ao anoitecer os sem-abrigo que por ali deambulavam durante o dia, recolhiam ao sitio habitual para se abrigarem da noite e do frio. Passaram cinco anos mas bastou voltar ao mesmo local para as memórias traumáticas desses dias voltarem. O cheiro a terra molhada e folhas mortas trouxe-lhe à memória os longos dias passados na floresta, escondida e com medo. Um calafrio deslizou-lhe pela coluna abaixo como se alguém a estivesse a observar. Virou-se de repente mas não viu ninguém. A imaginação estava a pregar-lhe partidas. Os candeeiros estavam acesos e reflectiam a luz na fina camada de neve presa nas árvores e nos bancos de madeira dando ao local um aspecto simultaneamente belo e fantasmagórico. Arrepiou-se de medo, as palmas das mãos suaram por baixo das luvas cinzentas de lã e, subitamente pareceu-lhe ver a figura de Rinks, grande, sujo e medonho, mais adiante. Assustada, voltou a olhar e, a figura que arrastava um carrinho com tralha era bem mais baixa que o perigoso homem. Um alivio percorreu-lhe o corpo fazendo-lhe deslizar sangue quente pelas veias. Não era ele. Talvez o melhor fosse perguntar pela Lucy e sair dali o mais rápido possível. Aquele hora do entardecer já ninguém circulava por ali. Ficou imóvel à espera que o mendigo se aproximasse, não quis assustá-lo e, assim que a proximidade foi suficiente para entabular uma conversa, deu um passo lento em frente e disse:
- Boa noite. Pode-me dar uma informação?
O homem levantou a cabeça do chão e olhou para ela com o olhar vazio.
É o Johnny Cadillac! Ele não me reconhece. A Lucy dizia que lhe colocaram aquele apelido pela paixão que tinha por carros daquela marca.
Dizia-se entre os sem-abrigo, naquela época, que tinha perdido os negócios em jogos de azar e no envolvimento com a máfia e, a família rejeitou-o. Era acarinhado por todos. Tinha sempre uma história para contar dos tempos em que fora rico, mas poucos acreditavam nele. Certa de que ele não a reconheceu disse:

- Há cinco anos vivia por aqui uma senhora chamada Lucy, por acaso sabe onde ela está? – perguntou tendo quase a certeza da resposta que obteria.

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