domingo, 4 de janeiro de 2015

Romance "Brincos de Princesa"

EXCERTO DO 1º CAPÍTULO

DISPONÍVEL EM INGLÊS NO FINAL DE JANEIRO EM TODAS AS LOJAS DA AMAZON.

Laura está a sobrevoar o Dubai, num avião dos Emirates prestes a aterrar e ainda pensa se não estará louca por ter aceitado aquele trabalho. O que é que uma rapariga de trinta e três anos, com uma carreira consolidada em marketing e com um emprego numa cadeia hoteleira conceituada, vem fazer num país de homens?
Talvez os desafios sejam o seu motor de arranque, o que a move e a faz feliz. Mas, talvez esta decisão tenha sido precipitada, além das suas capacidades e contra as suas crenças -afinal o país nada tinha a ver com a sua cultura- Laura era cristã e crente mas no entanto a religião não a impedia de pensar livremente e, no dia que isso acontecesse deixaria de amar a Deus. Ali, no Dubai, a religião e a lei eram uma só embora fosse um estado já muito evoluído em relação a outros países árabes.
 Com a cabeça enfiada na janela do avião- como faz desde criança-, não perde nada da viagem, mesmo a paisagem sendo só deserto ainda. Nada é visível para além da areia, mas, não desvia os olhos da janela, por isso reserva sempre passagem junto a uma. A curiosidade foi algo que sempre a atormentou. Em criança, os avós livraram-na de apuros muitas vezes – sobretudo quando subia às árvores para ver os ninhos dos pássaros -, até ela ter noção que não podia experimentar tudo.
Um dia, devia ter uns seis anos, subiu a uma oliveira para espreitar o ninho de um pintassilgo e deparou-se com uma cobra rateira a comer os ovos, enquanto os pássaros faziam uma enorme barulheira à volta da árvore na tentativa de a afugentar. Nunca mais subiu às árvores. Foi o maior susto da sua vida, embora a cobra que não media mais que cinquenta centímetros fosse completamente inofensiva facto que desconhecia, serviu-lhe de lição.
 Crescer numa quinta com imensa liberdade, no meio de cães, gatos, galinhas e ovelhas, foi o melhor que lhe aconteceu na infância, a riqueza de estímulos da natureza disponíveis ensinaram-lhe a estar em harmonia com o que a rodeava. Laura cedo se adaptou bem a qualquer espaço, a sua sensibilidade era tão refinada que era capaz de ficar horas a admirar um carreiro de formigas tentando perceber o sentido dos seus movimentos, como no momento a seguir se deitava de costas na erva alta do prado e ficava a admirar as nuvens e a encontrar figuras de animais em cada uma delas. Não era saudosista mas tinha boas recordações da infância e por breves instantes gostaria de retroceder o tempo e voltar lá.

Começam a ficar visíveis os primeiros arranha-céus da cidade e a curiosidade aumenta. O Dubai era um mistério desconhecido. Visitara países em quatro continentes, mas os emirados eram uma estreia. Nunca escolheria vir trabalhar num país tão longínquo e diferente da cultura europeia, se tivesse alternativas. Portugal estava numa recessão económica estrondosa, sem precedentes em toda a sua história e Espanha – onde trabalhava ultimamente- para lá caminhava. Seria uma questão de tempo até ser dispensada do emprego por falta de verbas. Apesar de ser uma das melhores publicitárias no activo, se houvesse despedimentos seriam os funcionários com menos tempo de serviço a serem dispensados e Laura incluía-se nesse grupo.
No avião todos se preparam para a aterragem, arrumando livros, hipods, apertando o cinto, rezando e alguns torcendo as mãos. Outros, descontraídos fazem «oh» e «ah» à medida que o avião se aproxima.
  Pelo aspecto dos passageiros muito são estrangeiros como ela e a maioria são turistas desertos de descobrir as excentricidades que só viram nos midias. O Dubai é um destino de férias e lazer muito procurado, sobretudo pelo exotismo e pelo turismo de luxo que oferece a quem o visita. É precisamente num desses hotéis, prestes a inaugurar, que ela irá trabalhar.
Quando Luísa - amiga de infância- lhe perguntou se estaria interessada em ir trabalhar uns tempos no Dubai para um Sheik do petróleo, ficou céptica e respondeu-lhe que ela devia ser louca- não lhe parecia que fosse um bom sitio para uma mulher. Luísa trabalha há dois anos como gestora numa herdade de turismo rural perdida nos confins do Baixo Alentejo, onde o Sheik se costuma refugiar nos meses de Verão. De Junho a Setembro as temperaturas rondam os quarenta e seis graus- por vezes mais -e, as famílias milionárias saem do país com destino a zonas do globo mais frescas.
 Luísa com o seu ouvido sempre à escuta - um defeito que Laura sempre lhe apontou - ouviu dos patrões o comentário que o Sheik precisava de um director de marketing com experiência em hotelaria e que estariam a recrutar pessoas para trabalhar. Claro que se lembrou logo de Laura e apressou-se a telefonar- lhe. Sabia que ela gostava de aventuras. Laura respondeu-lhe que ela só tinha romances e castelos de fadas na cabeça e que devia assentar os pés na terra. O Dubai não passava pelas suas ambições de trabalho, embora reconhecesse que teria muito trabalho na área de marketing, sendo um país virado totalmente para o turismo.
 Luísa e Laura são amigas desde crianças e têm uma amizade sólida e sincera. A resposta foi não, sobretudo porque mais uma vez Luísa estava a extrapolar as situações, a antecipar-se e a atropelar os outros. Não era a primeira vez que ficava numa situação embaraçosa por intervenções desastrosas dela. Para além dessa característica inconveniente é uma excelente amiga e boa profissional na área da gestão. A vaga era para um homem e ela não iria pedir emprego a quem não conhecia e muito menos a um Sheik. Laura é uma mulher muito pragmática e não mendiga emprego, todos os que obtive até agora foram por mérito.  
Passados alguns dias da conversa com Luísa e depois de já ter esquecido o assunto, recebeu uma mensagem através do Linkedln com a proposta de emprego para a mesma empresa.
Haverá coincidências na vida ou era apenas um presságio do que estaria para vir? Tinha a sensação -aliás sempre a teve- que algo de espantoso lhe estava destinado nesse país. Laura era um pouco supersticiosa e preferia pensar como o provérbio espanhol: Eu não creio nas bruxas, mas que elas existem, existem! 
No passado mês de Maio recebeu um prémio de publicidade com o anúncio de promoção da unidade hoteleira onde trabalhava. Actualizou o curriculum na plataforma e deve ter sido esse prémio que lhe granjeou o convite para integrar- ou melhor chefiar-, aquela equipa. Não poderia existir coincidência mais curiosa. O mundo é pequeno como dizia a avó Teresa e o Dubai estava há distância de um clique. Trocou alguns emails com o CEO da empresa e em poucos dias os pormenores estavam acertados e a passagem comprada. (...)


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