quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Excerto do livro Sonhos Adiados


(...)- Aline! – gritou Marie lá de baixo das escadas. – Despacha-te! Está aqui a Nicole e os rapazes.
Uma última olhadela ao espelho e considerou-se pronta. Blusa preta com fios prateados e calças de cetim brancas. Por cima um bom casaco de penas. O frio de Janeiro era intenso e a última coisa que lhe convinha era ficar doente. Estava sozinha no mundo e não podia contar com ninguém. Desceu as escadas com a ligeireza dos seus vinte e seis anos e em segundos estava na entrada da casa. Aline esperava-a.
- O que levas ai na mão? Sandálias de Verão? Não! Não acredito! – disse levando a mão à boca em sinal de espanto.  
- Acredita.
- Já percebi. Por isso te decidiste a vir connosco. És cá uma caixinha de surpresas.
- Vamos. Até logo Marie. – e deu um beijo na face da senhora. Habituou-se a cumprimentá-la dessa forma desde que foi morar na sua casa.
- Não bebam em excesso. Quem conduz?
- Hoje é a Lorena que não põe uma gota de álcool na boca. Fazemos à vez. Mas fica descansada Marie. Ninguém do grupo bebe em excesso. Vamos divertir-nos apenas.
Um carro estava parado à espera delas.
- Vamos  com a Lorena e o Michel. O Martin e o Jean já foram.
Meia hora depois estacionaram no parque da discoteca. O néon no cimo do edifício de betão cinzento, era a única indicação da natureza do estabelecimento.
- Vais ficar surpreendida com o interior. É muito agradável. Boa noite Pierre. – cumprimentou o porteiro.
- Olá Nicole. Hoje trazes uma amiga nova?
- É a Aline. Trabalha connosco no restaurante.
O rapaz cumprimentou-a com um aperto de mão e dirigiu-se ao grupo.
- A vossa mesa está reservada. Até logo mais. – disse o porteiro.
Cedeu passagem ao grupo abrindo a porta.
Até agora Aline não achou nada de novo. Era um clube nocturno, daqueles que frequentara durante muito tempo. A diferença era a iluminação. Mais clara.
A música não tinha qualquer diferença dos outros clubes. Será que Nicole não se enganara? Uma batida moderna saia das colunas de som.
- Pensei que… fosse só música latina?
- Calma mulher…a música muda a cada meia hora. Funciona como discoteca também. Olha! Lá estão eles. – e apontou para a mesa ao fundo, depois da pista onde os dois rapazes os esperavam. – Pareces um gatinho assustado.
O que a incomodava eram as lembranças de sítios parecidos e do que lá viveu. A última cena ainda lhe martelava na cabeça como se fosse um pilão de ferro a esmagar paredes.
A sala estava decorada em tons de branco e amarelo desmaiado e estava iluminada por uma luz difusa mas que deixava ver na perfeição quem estava a alguns metros de distância. Parecia um ambiente para pessoas mais velhas que eles, mas muitos jovens o preferiam a avaliar pelo número de mesas preenchidas com caras que não deviam ter mais que trinta anos. 
- Interessante este espaço…
- O dono é um antigo dançarino. Quis proporcionar um espaço que proporcionasse divertimento nocturno aos mais jovens e um sítio onde dançar fora das salas de ensaio ou dos concursos. O François é um homem muito interessante…amigo dos meus pais. Deixou de dançar quando a esposa e seu par na dança teve um cancro no seio.
- Triste. Mas…
Nicole não a eixou terminar a frase.
- Não, não morreu. Felizmente está viva e de saúde…mas passaram anos complicados. Hoje têm este espaço onde ainda dançam por vezes. Depois apresento-te às pessoas. Aline…
- Sim Nicole…
- Quero ver-te dançar. Sei que trouxeste os sapatos para isso.
- Não sei. Acho que foi a força do hábito de os carregar comigo. Não sei. Depois vejo. Não tenho par e há muito que não danço.
- Não seja por isso. Olha quem ali está!
- O quê? Quem?
- O teu vaqueiro mulher. Acabou de entrar. Uauuu! Olha só a fatiota!
Thierry acabara de entrar. O conjunto era bastante sedutor. Era de facto um homem imponente e vistoso. Alto, cabelo castanho-escuro, porte atlético e uma presença que chamava a atenção sobre ele.
- Acho que ele ouviu a nossa conversa. – disse Nicole a brincar. – Já tens par.
- Não brinques Nicole. – disse zangada. – Não estou virada para flirts.
- Não te zangues. Ele é muito amigo do Pierre. São companheiros das danças. Deve tê-lo convidado.
Não tardou um segundo que Pierre o chamasse. Do outro lado da pista levantou o braço saudando-o e, lentamente abriu caminho à volta dos pares que dançavam um bolero.
Vestia calças azuis e camisa branca e o ar de vaqueiro desparecera por completo dando lugar a um homem sofisticado e charmoso. 
O coração de Aline acelerou sem perceber porquê. Pensar que o homem iria ficar perto dela deixou-a ansiosa. O ar misterioso e duro intrigava-a tanto, como fazia com que tivesse vontade de fugir dali. Desde que o conheceu, no dia em que chegou à vila, sentia que ele estava no café mais vezes do que seria suposto, e que os pais de Nicole deveriam ter razão. Só esse motivo era suficiente para querer fugir dele. Chegava de envolvimentos amorosos.
- Boa noite.
Começou a cumprimentar todos com um abraço aos homens e um beijo na face às mulheres.
Pierre puxou uma cadeira para o amigo e Aline viu que não tinha saída. Ele ia ficar. Já só restava ela para cumprimentar. Parecia tê-la deixado para o fim de propósito. Sentou-se a seu lado na cadeira que Pierre lhe reservara e inclinou-se para ela para a cumprimentar.
- Olá. Posso cumprimentar-te?
E, antes que ela respondesse ele deu-lhe um beijo na face. Mais demorado que seria suposto, mas talvez tivesse sido impressão dela. Um cheiro a perfume caro, suave e masculino, sem ser demasiado intrusivo, chegou-lhe às narinas. Um arrepio desceu-lhe da nuca pela coluna abaixo.
- Boa noite, prazer, Aline. – deu por si a murmurar.
Nicole riu-se e do outro lado sussurrou-lhe.

- Céus mulher, não se conhecem já? O vaqueiro deu-te volta ao miolo. (...) 

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