segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Jardins de Luar - Excerto do livro

(...)Apesar de ser Verão o céu apresentava nuvens escuras a poente e Isabel começou a ficar preocupada com a possibilidade de apanharem chuva. O céu estava zangado. Os pássaros esvoaçavam em círculos altos e amiúde ouvia-se um trovão ao longe, coisa pouca, ainda. O vento dava um ar de graça de vez em quando e agitava as folhas das azinheiras em ondas ligeiras, para de seguida ficar tudo numa calmia enorme.
 Passava pouco das nove da manhã e o calor fazia-se sentir com intensidade. Ao longe, camponeses pertencentes ao condado limpavam a terra do mato crescido durante a primavera. Outros recolhiam tomate dentro de cestas e carregavam-no para uma carroça puxada por uma mula  possante.
 Os homens retiravam o chapéu à passagem deles, em sinal de respeito ao conde e as mulheres faziam uma vénia baixando ligeiramente a cabeça. Manuel Afonso cumprimentava com um aceno enquanto ia percebendo o que se passava nas suas terras. Junto ao ribeiro, um homem pequeno, vestido com roupa andrajosa e descalço, guarda um rebanho de ovelhas que procuram o fresco daquela zona povoada por choupos altos, que protegem os animais do calor. Isabel observava tudo e viajava para a infância. Costumava- já lá iam muitos anos- pela manhã, percorrer as terras com o pai fazendo exactamente o mesmo.
Um dos rendeiros fez sinal a Manuel Afonso que parasse, queria dizer-lhe algo e o conde apressou o cavalo até perto do homem. Isabel ficou à espera na estrada. O homem, vestido de forma diferente dos restantes camponeses balbuciou qualquer coisa e Manuel Afonso assentiu com a cabeça. Rodou o cavalo e em poucos segundos voltou a trote juntando-se a ela.
- Queria avisar-me que o bando do Morel está na azinhaga junto à ribeira e que são mais de trinta. – informou-a. – Ainda quer acompanhar-me menina Isabel? – tentou assustá-la.
- Não vejo porque não ir, Vossa Senhoria. – respondeu Isabel. – Acaso tem receio dos ciganos. – provocou-o.
- É essa a opinião que a menina tem de mim? – perguntou com um sorriso franco nos lábios, mas com ar zombeteiro. 
Isabel não respondeu mas ficou irritada. Porque é que tinha ficado com a impressão que ele estava a zombar dela. Não era mulher de se calar.
- Se Vossa Senhoria acha isso. Saberá se é homem para enfrentar trinta ciganos ou não. 
- Tenho cá a impressão que se me visse em aflições, a menina lutaria a meu lado. – disse sorrindo com aquele ar de troça, que Isabel reconheceu como sendo uma característica.
- Sem dúvida. – respondeu distraída sem perceber que estava a ser testada. Mas a distracção durou pouco. Percebeu o erro e emendou-se logo.
- Quer dizer. Não lhe podia valer em grande coisa…sou uma mulher.
- Mais afoita que certos homens que conheço. – deixou escapar. – A propósito, para quem estava com tanto receio de não se aguentar em cima do cavalo, está a sair-se muito bem. Onde aprendeu a montar? Não deve ter sido no convento. – e desta vez foi mesmo sarcástico.
- Na realidade foi…- calou-se. Encarou-o e respondeu.
- Vossa Senhoria nem imagina o que se aprende num convento. – se ele provocava ela dobrava a aposta.

- Posso imaginar…- respondeu parecendo distraído. (...)

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