terça-feira, 13 de janeiro de 2015

ANNA ( Livro 1 - Saga Familiar) - Excerto do livro

(...)Abriu a porta, e entrou na primeira divisão da casa, construída em madeira há mais de sessenta anos. Uma mesa velha e seis cadeiras que nunca tinham servido para mais nada do que estar ali, uma vez que nunca recebiam visitas, enfeitavam a divisão de acesso à casa. Uma jarra antiga sem flores, e cortinas gastas pelo tempo e pelo sol, enfeitavam as pequenas janelas de madeira castigadas pelas intempéries do inverno. Na parede ao fundo, antes da escada que dava acesso ao primeiro andar, duas fotografias de família amarelas e desbotadas pelo tempo. Anna não sabia quem eram as pessoas que compunham aquele grupo do tempo do trilho do Oregon, perdera-se essa informação ao longo das gerações, só sabia que eram antepassados oriundos da França, chegados há mais de cem anos e que seguiram o trilho como muitos milhares, em busca de ouro e terra fértil – o vale do Willamette era dos mais férteis dos Estados Unidos –, e que aí se tinham estabelecido quando a região foi colonizada e retirada aos índios. Os únicos vestígios desses antepassados eram apenas os nomes e apelidos que carregavam. Sim. Porque sempre sentiu que o apelido era uma espécie de maldição; o alcoolismo dos Chardon era conhecido na região e estava farta de ser apontada como a filha do bêbado. Um dia havia de ser rica, libertar-se de toda a miséria humana que a rodeava, e uma pessoa importante; talvez aparecesse um cavaleiro andante que a libertasse da clausura da torre, como nos romances que lia, conforme os apanhava nos lixos da zona fina da cidade.
 Sonhava acordada para não enlouquecer.

Que casa feia. Sem vida, sem afecto, o que teria ela feito para merecer tudo o que lhe aconteceu desde que nasceu? Fazia essa pergunta todos os dias a si própria. Desde que começou a entender o que se passava á sua volta, com cerca dos oito anos de idade, sentiu que a mãe não gostava dela, embora se recusasse a acreditar que fosse assim. Talvez por ser rapariga, Jodie sempre disse que queria filhos homens para trabalhar na quinta. O marido não prestava para grande coisa, apregoava para quem quisesse ouvir sem qualquer filtro na língua de cascavel que possuía.
- Raio de sorte! Porque me haveria de calhar um bêbado e uma filha mulher! Para mulher nesta casa chego eu. De pouco vales! Um dia despacho-te para criada numa casa de ricos, pode ser que cases com algum deles. Lavada e bem vestida metes alguma vista e deves dar uma boa foda. – e ria, ria, ria.
Um riso sardónico que entranhava pelos ouvidos levando Anna quase à loucura na maior parte dos dias.
Temia que a sua permanência na casa da mãe estivesse a terminar, mas, por mais terrível que Jodie fosse, o desconhecido assustava-a muito mais do que a ferocidade dela. Queria desligar-se e autonomizar-se mas não sabia como. Os seus conhecimentos geográficos não iam além daquela quinta, arredores de Albany, e a capital, Salem- outrora uma cidade índia- onde costumava ir com o irmão Michael, comprar as sementes de batata e beterraba para a plantação, duas vezes por ano. Era sempre um dia feliz. Ir passear e livrar- se dos pais um dia inteiro, funcionava como uma lufada de ar fresco na sua miserável vida. A cidade não ficava a mais de cinquenta quilómetros da quinta, mas nesses dias, só voltavam à noitinha; era dia de comer sorvetes e rebuçados, ver as montras com as novidades e percorrer os lixos das casas ricas em busca de algo que lhes fosse útil, nomeadamente livros e revistas já usadas. Desde que o irmão começou a ser capaz de gerir tarefas da quinta, a mãe entregou-lhas de boa vontade. Michael aprendeu a conduzir a carrinha quando tinha catorze anos e, como era alto, parecia ter mais idade, passava pela polícia sem que o mandassem parar.
Mas, nem tudo eram rosas nestas saídas à cidade. Conhecidos pela forma rude como os pais se relacionavam com os vizinhos, por onde passavam, viravam-lhes a cara, e aqueles que foram insultados por Jodie ou Ivan em alguma ocasião, chegavam ao ponto de lhes cuspir para os pés. A forma desleixada como andavam vestidos, deixava adivinhar a sua origem campesina, rude e pobre. Anna sentia-se muito envergonhada da origem humilde. Desde tenra idade teve noção que as pessoas os olhavam com desprezo pelo aspecto de mendigos que apresentavam. Ninguém respeitava a sua família e apesar de agora já perceber os motivos não conseguia deixar de sentir muita mágoa. Não merecia este tipo de tratamento. O seu sentido de justiça era já muito evidente nesta idade e achava que serem camponeses e agricultores não era motivo para viverem como bichos isolados da sociedade circundante. Mas, o que ela ainda não sabia é que a vida nem sempre é justa com as pessoas. Todas as quintas do vale do Willamette que eram próximas geograficamente tinham boas relações de vizinhança e até de amizade, só os Chardon destoavam.(...)


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